Relato #1

Esta é a transcrição do que foi dito durante um depoimento que pedi no dia 7/5/2011 a uma mulher de 54 anos (à época do aborto tinha 31 ou 32), branca, cujo rendimento bruto mensal é hoje de 10.000 reais (à época do aborto, era de cerca de 2.500 reais) e cujo nível de escolaridade formal é de doutorado completo. A entrevista tomou lugar numa tarde de sábado, em um quarto de uma de suas casas.


(Entrevistadora) – Então… me fala o que te vem à cabeça você pensa no seu aborto. Assim, a primeira coisa que te vem à cabeça.

(Narradora) – É… Pressão.

(E) – Uhm… E porque você acha que isso te vem à cabeça?

(N) – Porque na época eu me vi muito pressionada a tomar uma decisão e eu estava muito dividida e… e com muito medo também… E foi um momento muito difícil nesse sentido porque, de um lado, a idéia de ter ficado grávida era boa e ao mesmo tempo era ruim.

(E) – Era boa por quê?

(N) – Era boa porque eu – na minha primeira gravidez, que foi a de Gustavo -, eu tive uma gravidez em si muito boa e a sensação de estar grávida pra mim sempre foi uma coisa boa… E também porque  – eu não sei se é uma questão hormonal que a gravidez desencadeia-, que… automaticamente, pelo menos comigo acontece assim, eu quase que estabeleço uma relação imediata com o… o feto.

(E) – Você disse que teve um filho antes de abortar. Com quantos anos você tece esse filho e… é… me conta um pouco sobre a experiência que você teve com isso e no que isso influenciou você ter tomado a decisão – ou não influenciou você ter tomado a decisão – de fazer seu aborto.

(N) – Eu tive meu primeiro filho com vinte e um anos – a maior parte da gravidez com vinte – e… embora a gravidez tenha sido uma coisa muito boa ou o parto tenha sido muito bom e… o trato com o bebê depois de nascido tenha sido muito gratificante pra mim, criar um filho com vinte e um anos, estando ainda estudante e tendo que trabalhar, foi um acúmulo de responsabilidades muito grande que me levou algum tempo depois – mais ou menos um ano depois de que o bebê já estava nascido – a um certo quadro de depressão e de desespero que me custou muito contornar e me custou muito trabalhar e me deixou muito insegura depois quanto à minha própria capacidade de administrar esse situação de ser mulher que trabalha, que tem que ganhar dinheiro e ter filhos e tudo o mais.

(E) – É… Você teve esse seu primeiro filho com um outro marido – com… quem você foi casada com essa outra – essa outra pessoa. Me fala um pouco sobre a relação dele com o bebê e… no que isso te ajudava ou não te ajudava.

(N) – Em termos de trabalho braçal, o meu primeiro marido me ajudou muito. Ele sempre foi uma pessoa muito participativa no que diz respeito ao cuidado, assim, com o bebê quando era pequeno, né? Então ele trocava fraldas, ele dava banho, ele ajudava depois de fazer mamadeiras e sopinhas – era uma pessoa muito participativa e eu não tenho nenhuma queixa quanto a esse aspecto. Agora, ao mesmo tempo, ele não foi, também, uma pessoa que depois desse filho tenha amadurecido no sentido de procurar ter uma vida… é… de trabalho mais estável, que pudesse ajudar a prover à família melhores condições de vida. Então eu fiquei também com uma responsabilidade de prover essa condição de vida que ficou um pouco acima de minhas forças à época, inclusive porque depois de algum tempo esse meu primeiro marido resolveu que de fato o que ele queria na vida era ser ator de teatro e ai a nossa vida econômica ficou absolutamente insegura.

(E) – É…  você disse que ele dividia o cuidado da criança mais ou menos de uma forma equilibrada. É… e você deu alguns exemplos, disse que ele fazia a mamadeira, que ele cuidava do…. do Gustavo… mas, assim, em termos de deixar de fazer coisas como estudar e trabalhar, você acha que houve um equilíbrio na separação do trabalho entre vocês, quer dizer, no quanto cuidar da criança atrapalhava outras coisas pra um e pra outro?

(N) – É… isso depende muito da fase. Na fase em que o bebê está sendo amamentado é meio impossível ao pai substituir certas funções que são obrigatoriamente da mãe – tipo, amamentar. Mas depois que o bebê é desmamado do peito e que começa a tomar mamadeiras e comer, essa divisão fica muito bem dividida. E havia isso e eu nunca deixei de fazer as coisas que eu tinha de fazer. A única… o único desequilíbrio aí que eu percebo – inclusive pelo fato de que o pai era ator e trabalhava com teatro e, portanto, a maior parte do trabalho dele era à noite – eu (para que ele pudesse, enfim, trabalhar ) eu não saia à noite. Eu tinha de ficar com o bebê. Mas ao mesmo tempo ele também ficava muito com o bebê para que eu fizesse minhas atividades diurnas – que eram faculdade e trabalho. Então, na realidade, no nosso caso, não houve muito uma necessidade de que eu abandonasse atividades, a não ser no plano do lazer e da diversão… que eu fiquei praticamente sem isso.

(E) – E ele também.

(N) – E ele de uma certa forma também. A diferença é que o trabalho dele já era mais divertido, por si só. Porque era um trabalho de grupo, um trabalho de teatro que em si já é algo mais divertido do que uma pessoa como eu que estudava na faculdade, tinha aula, tinha que fazer trabalhos e ainda trabalhava na Câmara dos Deputados.

(E) – É… depois… é… de algum tempo, você se separou desse seu marido e, pelo que você me disse, isso não teve muito a ver com.. é…sei lá, uma divisão.. é… i…i….ini… iiiii…

(N) – Desigual

(E) – Isso! Obrigada. Desigual. Haha!

(N) – Do trabalho doméstico…

(E) – Do trabalho doméstico entre vocês, né?

(N) – Mas não houve…. Não houve uma divisão desigual do trabalho doméstico, mas houve uma dê… uma divisão desigual de responsabilidades.

(E) – De responsabilidades em geral – e isso engloba os… as…as necessidades domésticas – ou de um tipo específico de responsabilidade?

(N) – Do tipo específico de responsabilidade do provimento da casa. Porque como eu era uma pessoa que acabei me qualificando mais, naturalmente o provimento da casa ficava muito mais dependente de mim do que dele.

(E) – E isso foi um ponto muito importante na sua decisão de se separar dele.

(N) – Não, não é que tenha sido esse o ponto. Ou seja, eu não diria que eu me separei por causa disso, mas isso pesou no desgaste da relação.

(E) Tá certo. É… então, depois que você se separou desse seu primeiro marido, você conheceu o seu atual marido – né? Dentro de um certo tempo – e ele teria sido pai dessa criança que você abortou, certo?

(N) – Certo.

(E) – É… então, agora que a gente chegou nessa parte, né, mais ou menos cronologicamente, da história… conexa, né, pelo menos do meu ponto de vista… né, do… do… – o que eu falo, o que eu digo, é, o que eu disse antes, para mim, talvez não seja tudo conexo com o fato (afinal de contas eu ainda não te perguntei nada sobre ele) mas eu achei que fosse conexo, então eu segui esta linha para chegar aqui. É… enfim, eu queria te perguntar, como é que foi que você descobriu que estava grávida, como foi que você decidiu que ia fazer – abortar. Se você conseguir me contar isso… não precisa, sabe, lembrar de tudo agora, a gente vai perguntando.

(N) – Bom, é, eu acho que a minha experiência anterior tem tudo a ver com a minha decisão de fazer o aborto… *pausa longa* e acho que, não só essa minha experiência anterior, mas o fato de que a minha relação com o meu atual marido na época era ainda uma relação ainda muito frágil, no sentido de que era uma relação, não de casamento, mas uma relação de namoro, que não estava, inclusive, pautada por nenhuma intenção de vida em comum  – naquele momento. Então, eu tenho a impressão de que o meu grande receio de assumir aquela gravidez tenha a ver com a barra pesada que eu havia enfrentado pra criar o meu primeiro filho mais ou menos sozinha…Em termos da responsabilidade pela provisão da vida dele; eu não conhecia esse meu namorado ainda o suficiente para saber se ele, por exemplo, seria um bom provedor – se ele dividiria esse encargo da vida diária da criança comigo… efetivamente; terceiro lugar, eu não sabia se eu queria construir uma vida a dois com ele e criar um compromisso maior do que um compromisso de namoro; e eu tive medo de me ver de novo numa situação de solidão, em termos da responsabilidade por criar um novo filho e, além do mais, de continuar a criação do filho que eu já tinha e que era criança ainda, na época; e ter que fazer isso sozinha e cair de novo num quadro de desespero e depressão. Eu tive minhas dúvidas… se eu teria forças e capacidade de assumir de novo tudo sozinha, se eu tivesse de assumir de novo tudo sozinha.

(E) – E como foi que você descobriu que estava grávida… Nesse momento?

(N) – Bom, eu sempre tomei muito cuidado com preservativos e essas coisas depois da minha primeira gravidez – e tanto tomei cuidado que quando meu primeiro filho nasceu eu tinha 21 anos e eu só voltei a ficar grávida a essa altura quando eu á tinha 32; portanto, eu era muito cuidadosa, eu fui cuidadosa durante praticamente 11 anos… mais ou menos isso. Mas eu não sei o que aconteceu, eu dei um escorrego. Eu era, eu acho, uma pessoa muito fértil e bastava eu me arriscar uma única vez para que eu engravidasse – e isso aconteceu também na minha primeira gravidez. Foi uma única vez de… que… eu não me preveni corretamente e eu engravidei do primeiro filho; e dessa vez também foi a mesma coisa, foi uma coisa, assim, de uma vez só também. E ai, passados alguns dias ou mais ou menos um mês, eu percebi que estava grávida e começou todo o drama *limpa a garganta* de ter de decidir o que fazer.

(E) – Você tem repetido muito que você foi uma pessoa prevenida e que você deixou de se proteger naquelas circunstâncias – e você, no começo da entrevista, tinha falado sobre culpa [na verdade, eu me enganei, na ocasião, quanto a isso. A narradora havia me falado sobre sua culpa conectada com isso na ocasião em que pedi que fizéssemos este depoimento]. Então, de certa forma, é… e eu quero que você fale sobre isso, se minha interpretação está correta ou não… Você não ter se prevenido naqueles momentos é um dos.. é… componentes dessa culpa.

(N) – Sim.

(E) – E quanto a seus parceiros sexuais não terem se prevenido também? Você acha que você transfere essa culpa para eles também; que você transfere, mas numa intensidade menor do que… Do que você faz com você mesma; é… e…. *longa pausa* se eles já tiveram essa conversa com você e se eles demonstraram alguma culpa quanto a este fato da não-prevenção?

(N) – Eu acho que os homens de um modo geral não sentem esse tipo de culpa – e acho que os meus dois maridos também não sentem. Racionalmente, eu acho que eles também têm culpa… Claro. Agora eu acho, ao mesmo tempo, que no fundo eles não estavam muito preocupados com o assunto. Tanto que, quando eu engravidei do meu primeiro filho –  e eu tinha 20 anos e meu marido tinha 22 -, embora para ele naquela época aquilo fosse também uma responsabilidade super pesada, em nenhum momento ele, por exemplo, propôs que fizéssemos um aborto. Ele quis a criança desde o momento em que ele soube que eu estava grávida. Da mesma forma, o meu marido atual – quando eu fiquei grávida por acaso, dessa vez – ele também não fez nenhuma pressão para que eu abortasse – como acontece muitas vezes dos homens fazerem, né? Inclusive, ele me deixou muito, assim, à vontade, no sentido de que, se eu quisesse ter a criança ele apoiaria. Eu é que acho que não tive condições naquele momento de acreditar nesse apoio. Então, o que eu quero dizer é que pelo menos nesse… na… na minha experiência, eu às vezes penso que os homens não se preocuparam com isso, até porque no fundo eles não se importariam de ter os filhos.

(E) – Tá certo. E quanto ao aborto? Ele te deixou – o seu marido atual – ele te deixou à vontade para fazer a escolha do aborto?

(N) – Também, também deixou. Na realidade, os homens ficam numa posição mais confortável, porque deixam a decisão na mão da mulher… Porque eles tanto dizem que vão apoiar se você disser que quer ter, quanto dizem que vão apoiar se você não quiser ter. Então acaba que a decisão é sua mesmo.

(E) – Ele manifestou alguma preferência por uma ou outra opção?

(N) – É, não me lembro assim com muita clareza. Eu tive a impressão – mas também não tenho certeza – de que ele também estava confuso e dividido, mas, ao mesmo tempo, não querendo me pressionar… a nada. Eu não saberia lhe dizer, de fato, se ele queria uma coisa ou outra, efetivamente.

(E) – Tá certo. É… Então a decisão de fazer o aborto foi – e você sente que foi – sua?

(N) – Foi, foi minha.

(E) – E isso é mais um componente da sua culpa?

(N) – Pode ser.

(E) – Você não pensou nisso como um componente da sua culpa, ou você começou a pôr isso como uma possibilidade porque eu falei ou você já tinha pensado nisso antes?

(N) – Não, claro… Eu nunca achei que ninguém fosse responsável pela minha decisão. Talvez eu tenha responsabilizado – não exatamente responsabilizado –  mas talvez tenha somente uma pessoa que eu achei que de fato pesou na minha decisão – e que não foi, no caso, o pai da criança – foi a minha mãe. Porque quando eu estava nesse grande desespero, pensando no que eu ia fazer ou no que eu deveria fazer, eu acho que e fui em busca de apoio da minha mãe. E… pelo que ela me disse – não que ela tenha me dito ‘faça um aborto’ –, mas… eu acho que eu fui a ela tentando buscar um apoio pra uma decisão de manter a criança, vamos dizer assim. Ou seja, eu acho que eu fui sondar minha mãe se ela me ajudaria caso eu resolvesse ter aquele filho, já que eu não tinha nenhuma confiança na ajuda do pai…. naquele momento. E da forma como ela conversou comigo, ficou pra mim o entendimento de que ela não me ajudaria tanto e que talvez ela achasse melhor eu tirar. Eu acho que isso pesou um pouco na minha decisão porque eu me senti mais só pra lidar com as responsabilidades de ter outro filho.

(E) – Tá bom. É… Agora vamos para a parte do aborto em si. Como é que foi, como é que você descobriu como é que fazia, como é que foram os dias antes de você fazer, como é que foi o momento?

(N) – Bom, chegou o momento em que eu admiti pra mim mesma que eu, sem essas garantias de apoio que eu fui atrás, que eu não tinha condição sozinha de assumir… *voz travada na garganta* a responsabilidade. Que eu não agüentaria, em suma, assumir a responsabilidade. Então eu decidi que eu iria fazer o aborto… a partir dessa conclusão. *a voz volta gradativamente à forma original* E ai eu conversei com algumas amigas da época que já tinham feito ou que sabiam, em *diz o nome da cidade em que morava à época*, como se conseguir fazer um aborto de forma segura. E ai tive a indicação de uma clínica, de um médico particular que fazia aborto por sucção, que é uma forma – era, pelo menos, uma forma – mais moderna, rápida e até melhor, digamos, de fazer e menos arriscada – que não é aquela velha maneira da curetagem, né? E daí eu fui nessa clínica, mas o que eu posso dizer é que foi tudo muito, muito, muito sofrido. A própria decisão, no fim, de fazer, a própria procura dos meios… Eu me lembro que no dia que eu cheguei na clínica para fazer o aborto, eu fui com uma amiga e fui com o meu atual marido – ele foi comigo também –, mas até a hora, enquanto eu estava ali na ante-sala, eu ainda tinha dúvidas se de fato eu ia entrar e fazer. É uma coisa… Pelo menos pra mim, todo o processo foi uma coisa muito dilacerante e muito, assim, difícil, no sentido de ter clareza de fato do que eu queria. Eu acho que eu fui muito mais pressionada por um receio de não dar conta do que qualquer outra coisa. Mas acabei entrando e o aborto em si foi muito tranqüilo no sentido de que eu não senti nada, foi uma coisa muito rápida. Eu não senti dor nenhuma. É dada uma anestesia local. Foi muito bem feito. Eu não tive conseqüência alguma. Então, assim, em termos da intervenção em si, não foi uma coisa traumática. O trauma é muito mais mental, psicológico, emocional – pelo menos pra mim foi assim – do que físico. Eu não tive propriamente um trauma físico.

(E) – Dizem que depois de fazer o aborto – qualquer método – você tem que fazer uma raspagem do útero. Você teve que fazer alguma coisa assim?

(N) – Não, justamente porque eu fiz o aborto nesse método de sucção e como ele foi bem feito… depois eu fui na minha ginecologista normal e falei pra ela… ela examinou tudo e não precisou fazer nada.

(E) – E… Assim, me desculpe por estar perguntando isso. Talvez seja uma coisa muito inapropriada e que pode causar dor. Mas, você não viu o feto depois.

(N) – Não, ninguém vê.

(E) – É… e… é… semanas depois do seu aborto, você se sentiu… ficou como?

(N) – Eu fiquei muito mal… psicologicamente… depois do meu aborto. Eu fiquei muito deprimida porque, embora eu tenha decidido por ele, não foi uma coisa absolutamente tranqüila pra mim, ou seja, essa decisão não foi produto de uma tranqüilidade que de repente eu alcancei, depois de analisar bastante a questão ou depois de pensar bastante. Foi o tempo todo uma ação que eu hoje vejo muito mais derivada do medo do que qualquer outra coisa e… então, a minha sensação pós-aborto de covardia,… de fraqueza, de tudo, foi muito grande.

(E) – Então, você a associa sua dor pós-aborto, depois do aborto, mais a como toda a situação te fez se sentir frágil e sem controle sobre sua própria vida ou com algum julgamento além disso, diferente?

(N) – Olha, eu sempre fui uma pessoa, no fundo, religiosa, também. Eu achava também que eu tinha feito uma coisa errada. Eu achava também que eu tinha eliminado uma vida que podia ter existido. Eu acho que isso também me deprimiu e… o fato, principalmente, de não ter tido coragem suficiente pra permitir que essa vida prosseguisse, por ser – era como eu me sentia na época – uma pessoa fraca e covarde.

(E) – E… como seu atual marido… é… lida com toda a situação do aborto?

(N) – Eu acho que ele também não sabia o que queria naquela época e acho que ele compreendeu a minha decisão… e depois que eu abortei ele me apoiou muito, quando eu fiquei, assim, deprimida, emocionalmente abalada, ele me deu muito apoio. Então, inclusive, é duro até dizer, mas foi isso que nos aproximou muito mais e que acabou fazendo com que agente fosse viver junto. Foi conseqüência desse apoio que ele me deu – tão grande – depois do aborto.

(E) – E depois vocês tiveram outro filho.

(N) – É, e ai a gente passou a morar junto e eu fui vendo que, de fato, ele era uma pessoa em quem eu podia confiar muito mais do que eu pensava antes, né? Porque fui conhecendo melhor, fui vendo que era uma pessoa que não iria, assim, me deixar na mão com a responsabilidade toda, inclusive… naquilo que era meu grande trauma anterior, que era o provimento dos meios, né, de vida. E eu acho que tudo isso e a culpa que eu carregava do aborto me levaram a ter outro filho, também.

(E) – Então você planejou esse seu último filho e o aborto teve um papel não repressor, mas incentivador de sua decisão?

(N) – É, é, foi isso mesmo. Eu, num dado momento, eu resolvi, então, que eu queria ter outro filho e ai eu parei de usar os métodos anticoncepcionais. Foi a primeira vez que eu engravidei não por acidente, como foi, né, das duas outras. Mas que eu engravidei porque de fato eu quis engravidar.

(E) – E o que está por trás de querer um outro filho, pra você? Um filho, quer dizer, um filho qualquer. Não digo esse, mas querer um filho.

(N) – Bom, eu não descarto a possibilidade de que nesse caso eu tenha querido, de algum modo, compensar aquele aborto. Pode ter sido também, embora isso não fosse um raciocínio claro. Mas eu acho que àquela altura eu já me sentia uma pessoa mais capaz. Eu… já – quando a gente é jovem, a gente às vezes amadurece rápido de um ano para o outro. Coisas acontecem que, de uma situação de insegurança você passa a outra de segurança. Acho que foi um pouco isso que aconteceu, porque também o meu trabalho se estabilizou mais; eu comecei, justamente nessa época, a assumir funções… mais de coordenação, de chefia. Como eu passei a ganhar melhor, eu acho… E o meu marido também, então, eu acho, teve esse conjunto de coisas. Eu de repente me vi numa situação em que ter um filho não era – naquele momento, como foi antes – uma coisa de ter que enfrentar uma dificuldade financeira muito grande.

(E) – Entendi. É… você me falou de vários elementos facilitadores de ter um filho, mas o que eu queria mesmo te perguntar é o está por trás dessa decisão positiva de se ter um filho, entendeu? Mesmo, assim – óbvio que as circunstâncias são favoráveis ou não e que circunstâncias favoráveis favorecem, por definição, a decisão; mas o que é que está por trás da decisão de ter um filho? O que é que isso significou pra você na época?

(N) – Eu nunca parei pra pensar, assim… Nesses termos. Eu, na época, tinha uma consciência muito grande de que eu queria ter outro filho, mas eu não ficava me interrogando ‘por quê eu quero ter outro filho?’. Eu sabia que queria. É… Eu achava que eu era mais capaz do que eu fui, de criar uma criança, do que quando eu tinha 20 anos. E eu acho que eu quis ter essa experiência de ter um filho sem pressão, um filho procurado ao invés de um filho chegado por acidente. Eu acho que teve isso também, né, de poder ter a experiência de ter um filho… planejado. Porque, na realidade, depois que eu tive o meu primeiro filho, eu gostei de ter filho. O problema foi que eu enfrentei muitas dificuldades… Financeiras e emocionais. Mas naquela altura eu achei que eu não ia mais ter de passar por essas dificuldades e que, então, eu poderia ter, muito mais do que eu tive antes, o lado prazeroso da maternidade. Por que… quando eu tive Gustavo, eu descobri, de algum modo, esse lado prazeroso da maternidade que é o… segurar um bebê, que é… botar um bebê no colo, que é amamentar um bebê – pra mim sempre foi uma coisa muito prazerosa… Tem todo um lado prazeroso que eu acho que eu quis recordar também.

(E) – Então, o… se eu entendi – e eu acho que é… Então, se eu entendi, o prazer da maternidade pra você está ligado ao lidar com o bebê?

(N) – É… Eu acho que tá ligado com várias coisas. Tá ligado com essa coisa muito sensorial, muito telúrica, assim, a… a gravidez, o estado de gravidez, pra mim sempre fuimuito agradável. Eu sempre me senti muito bem grávida. Inclusive posso dizer que grávida eu me sentia melhor do que não-grávida. Eu nunca enjoei, eu nunca me senti mal na gravidez. Eu me sentia bem, eu me sentia melhor, eu me sentia com mais pique. Eu me sentia… melhor, mesmo. Estado geral. E… eu também tive muito prazer nessas coisas todas após o parto, que é o… a amamentação, esse contato muito estreito com o bebê. Isso tudo pra mim sempre foi uma coisa prazerosa.

(E) – Okay, então, ‘brigada. Você acha que… quanto a este assunto, tem mais alguma coisa, alguma pergunta pra fazer, alguma coisa que não foi contemplada?

(N) – … Não. Eu acho que eu falei tudo. Tem, claro, muita coisa para dizer, se a gente for pensar, no processo de criar um filho. Mas ai já é outro, outro assunto, né? O assunto aqui é aborto. Criar um filho e o que a gente sente em relação a isso, como é a dificuldade ou não de fazer isso… ai tem muita coisa pra falar, sem dúvida, mas ai a gente foge do escopo desta entrevista.

(E) – Então muito obrigada.

(N) – De nada.