Relato #2

Entrevista conduzida na tarde do dia 06.06.2013 em um Café tranquilo e vazio da 108 Sul (Brasília – DF). Sentamo-nos numa das mesas mais distantes da rua e que guardava também alguma distância de um grupo de senhores idosos – três homens e uma mulher, únicos outros clientes do café além de nós -, que conversavam em um tom bastante alto sobre a necessidade de diminuir a maioridade penal e sobre os benefícios de se frequentar uma academia de musculação em sua idade. Valentina entra no café alguns minutos depois de mim, acompanhada por um homem jovem, que, então, despede-se dela e nos deixa a sós.

– Tá. Então, é… Eu vou começar com algumas perguntas pontuais. Talvez elas sejam um pouco, é… Pouco simpáticas, assim, mas… Toda entrevista em questionário, que não é uma entrevista falada tem. São dados importantes.

–  Qual é a sua idade agora?

– 22.

– 22… E a sua escolaridade?

– Eu estou cursando o ensino superior.

– Hm… Qual é a sua raça, etnia ou cor da pele?

– Branca, né? Provavelmente…

– É auto-declarada. Você é que decide.

– É *risos*, mas o meu cabelo, né? Gera dúvidas *risada*

– É, o meu também. Ele ta bem curto, mas ele cacheia bastante. É… e sua identidade de gênero? Gênero masculino, feminino…

– Feminino.

– Ou indefinido? Sua opção sexual, você, é… tem alguma problema em…

– Bi.

– Você tem renda própria?

– Tenho.

– Quanto você tem em média por mês?

– São… em média… 2.300 reais.

– Você recebe auxílio financeiro de seus pais ou de outras pessoas?

– Não.

– Hm… Você mora aqui em Brasília, na Asa Sul?

– Eu moro na Octogonal. Assim, o auxílio financeiro que eu recebo é o de que eu moro na casa deles e como a comida deles *risos*.

– Ah, certo. Beleza.

– Mas, assim, eles não me dão dinheiro físico, assim, dinheiro mesmo.

-Uhum… *Grande pausa* Você é natural de Brasília?

– Aham.

– Já morou em outros lugares?

– Já.

– Quais?

– Eu morei nos Estados Unidos.

– Por quanto tempo?

– Só um semestre. Eu fui intercambista.

– Legal, você foi pra onde?

– Eu fui pro Indiana. Cidadezinha…

– Sério? Que legal.

– Foi bem interessante.

– Certo. Agora eu vou passar para as coisas um pouco mais relacionadas com a experiência do aborto. Quantas experiências de aborto você já teve?

– Uma.

– Você tem filhos?

– Não.

– Qual é o seu estado civil?

– Solteira.

– E como foi que você descobriu que estava grávida nessa experiência do aborto?

– A minha menstruação estava atrasada só… Acho que… Uns dois dias mais ou menos e eu achar estranho, porque naquela época ela estava vindo certinha sempre… E como eu tinha, né? Transado, eu fiquei mais preocupada, porque eu sempre fui muito preocupada… Aí eu fiz o teste da farmácia…

– Deu certo? É, tipo, apareceu o resultado positivo no primeiro teste que você fez?

– No primeiro teste… E ai no mesmo dia eu fui no hospital e fiz o exame de sangue. Deu positivo também.

– Certo. E, é, passou quanto tempo até você decidir fazer o procedimento?

– Foi só o tempo d’eu comprar o remédio. Foram quatro dias mais ou menos.

– Quatro dias.

– É, quatro… Que foi o tempo de juntar o dinheiro…  Juntar o dinheiro foi o mais difícil.

– Conta um pouquinho sobre esse processo, de descobrir até o início do procedimento.

– Assim, é… um pouco antes eu tava namorando, né…

– É *risos*, pode falar…

– Ah sim. Eu tive… Ele foi meu primeiro namorado. Eu perdi minha virgindade com ele e a gente ficou junto um ano e meio, mais ou menos, só que…

– Você tinha quantos anos?

-Eu tinha… Na época eu tinha acabado de fazer 19. Foi no mesmo – no mesmo mês do meu aniversário. É, 19, cravado… E ai eu tinha… A gente tinha ficado um ano e meio juntos, aí começamos a brigar – normal – e ai a gente resolveu se separar, mas a gente ainda era muito amigo, então a gente continuava se vendo e nesses “se vendo”, né? Acabou rolando de a gente ficar junto de novo… E eu, eu não sei o que aconteceu. Eu fiquei com ele um ano e meio, a gente tinha vida sexual totalmente ativa, eu nunca tive problema nenhum, nunca cheguei nem perto, nunca fiquei na dúvida, nada… Só que ai, nesse último -no único dia que ele… No único dia que você se desliga ai um segundo, aconteceu. Não deu outra.

– Você tava usando alguma é… Alguma pílula, alguma coisa assim?

– Como a gente tinha terminado, eu parei de usar a pílula porque a pílula tava me engordando um pouco, eu tava tendo problema de peso e ai eu pensei: pô, já que eu já tou mais namorando vou parar de tomar pílula, né, porque sexo não vai vir com tanta freqüência, então, quando eu transar, eu uso camisinha. Mas ai nesse dia a gente tava sem camisinha, eu era jovem, eu…

– *Riso* Você ainda é jovem!

– É. Não, mas é porque eu me sinto bem mais jovem naquela época, sabe? Eu não sei, eu também nem trabalhava, então a minha vida era outra coisa, assim… Claro que até hoje em dia tem vezes que eu me desligo e faço sem camisinha, mas, eu acho que a parte de mim que foi bastante jovem foi eu achar que nunca ia acontecer comigo. Porque na minha cabeça eu ia fazer aquilo, mas, cara, eu já transei um ano e meio, não tem por que eu ficar grávida agora, entendeu? Eu realmente achava que não ia acontecer comigo… E ai acabou acontecendo e… E eu tenho uma dúvida: eu não seise eu tomei pílula do dia seguinte ou não. Eu tenho quase certeza que eu tomei uma pílula do dia seguinte, porque eu me lembro que quando eu fiz, eu olhei na minha tabelinha depois e eu pensei: olha, eu achei que eu tava mais próxima da minha menstruação, mas eu não tou tão próxima assim, então é melhor eu tomar pílula do dia seguinte… Mas eu não tenho certeza de quantas horas. A minha memória daquele período é um pouquinho conturbada…

– Eu imagino.

– É. Sabe quando eles dizem que… Eles não, o Dante, ele fala que, é… A memória – não, a palavra é o que sustenta a memória, né? Então, eu não falo muito sobre o assunto e não tenho tantas palavras… e se perdem e também, por inúmeros motivos, acaba meio que fugindo, então, às vezes eu fico meio confusa, mas eu acho que eu tomei pílula do dia seguinte, eu me lembro até que eu mostrei pro ginecologista uma das pílulas e ele falou que aquela pílula realmente era… Questionável. Ele me explicou que pílula do dia seguinte, tem muitas que… É água e farinha. Ele falou que é bem comum é por isso as mulheres, elas têm mesmo que se focar na pílula todos os dias ou na camisinha…

– E você procurou o seu ginecologista logo depois de tomar pílula ou um pouco antes ou…

– Eu, eu procurei ele só quando eu fiquei grávida. Aí eu procurei ele.

– Certo.

– Aí, foi assim: eu descobri que eu, que eu tava grávida, né? E aí eu tava com meu ex-namorado – ele tava comigo. E a gente fez tudo junto. Eu descobri que eu talvez estivesse, atrasou um pouco, eu já liguei pra ele e a gente já se encontrou, porque a gente… Nós éramos muito amigos, então a gente fez tudo juntos… E aí, é, o que aconteceu foi que ele, ele não deu opinião. Ele, a postura dele…

– Seu namorado ou seu ginecologista?

– O meu ex-namorado. Ele não deu opinião, porque, assim, a gente descobriu, e aí eu perguntei pra ele: e aí, o que é que a gente vai fazer? E ele falou que a escolha era totalmente minha e que ele não tinha… Por mais que ele tivesse a ver com aquilo, ele não tinha que dar nenhum opinião ou então tentar me fazer escolher por um lado ou outro.

– E você sentiu, quando ele disse isso, isso era uma postura respeitosa ou desrespeitosa com você?

– Respeitosa. Eu gostei muito. Eu acho que era exatamente o que ele tinha que ter feito. E… e assim, a gente conversou com a mãe dele também, no dia seguinte, que ela chegou na casa dele e a gente tava com uma cara, né? Enorme. Ela olhou pra nossa cara: a Valentina tá grávida.

– Foi?

– É, é. Nossa expressão *risos* mostrou bastante coisa, né, assim…

– Imagino *risos*.

– E ela falou a mesma coisa. Ela falou pra ele que, não importa qual decisão eu tomasse, que a decisão ia ser minha. Por mais que ele fosse pai, o filho ia ser meu e por mais que eu escolhesse abortar, quem ia viver com a decisão de abortar seria eu. Ele não. Ele ia seguir em frente, ele ia ter outras parceiras, mas eu pra sempre ia carregar isso comigo. Qualquer uma das duas decisões. As decisões sempre… Ela pensava bem como ele, né? Ela influenciou ele.

– Bem, você tava grávida, você procurou seu ginecologista… Como é que você começou a descobrir como fazer o aborto, assim… Você já sabia antes disso? Por onde? Foi na internet?

– Na hora em que a gente descobriu a gente passou uma hora mais ou menos chorando dentro do carro, no desespero, os dois, e ai a gente ligou para um amigo nosso e eu sabia que ele tinha uma amiga que tinha tentado abortar ou abortado – eu não sabia –, mas eu sabia que alguma amiga dele já tinha se envolvido com uma situação parecida com a minha, então a gente ligou para ele mais ou menos uma hora depois. Eu não tinha certeza, uma hora depois, que eu queria abortar, mas era o mais provável e eu sabia. Eu já sabia que era o mais provável. E aí a gente já foi ligar para ele para pedir a informação. O meu ginecologista me deu muita informação. Na verdade foi ele que falou onde que a gente ia comprar. Ele falou o nome Cytotec. Ele que falou como ia usar…

– Me dá o telefone desse ginecologista, por favor *risada*, que a minha não é tão legal assim.

– Pois é. Ele falou como eu tinha que fazer, sabe? Colocar uma pílula na vagina, tomar duas – foi ele que falou tudo. Ele me deu o telefone dele caso eu passasse mal, ele fez tudo.

– Ele é jovem ou mais velho?

– Não, é mais velho. Ele tem uma filha da minha idade. Aí eu acho que ele simpatizou um pouco…

– É, simpatizou com a causa…

– É.

– Certo. Ahm… E aí, tá – o seu ginecologista te deu essas informações, você procurou com seu amigo que conhecia uma pessoa, você comprou…

– Eu não comprei. Meu ex-namorado e o pai dele foram lá na Feira do Paraguai e ai saíram procurando, perguntando naqueles… lugares de remédio, até que, depois de todo mundo falar “Não, a gente não vendo isso aqui não. A gente não vende isso aqui não. Cês são polícia? Vocês são policiais? Não, porque a gente não tem isso aqui não.” Aí, de repente – eles ficaram parados assim um tempão *risos*. Só parados, olhando. Aí, de repente, uma meia hora depois, mais ou menos a mulher saiu e falou“não, tudo bem, se você não são policiais eu posso dar o nome de um amigo meu”. Aí foi o amigo que vendeu absurdamente mais caro do que deveria ser, né? Acho que era – ele só deu 4 comprimidos. Cortou um pedaço da cartela, 4, e foi 350 reais na época.

– Cytotec?

– Cytotec.

– 350, quatro comprimidos. Certo. E… tá, e depois disso eles levaram o Cytotec para sua casa? Você abortou em casa ou…

– Num hotel.

– Num hotel.

– É, porque…

– Seus pais ficaram sabendo?

– Só a minha mãe. Ela também descobriu. Mas assim, lá em casa… Não é bem visto. Por ninguém na minha casa, sabe? Eu acho que minha a irmã, talvez ela entendesse. Eu, depois, posteriormente, eu falei com ela, mas, assim, a gente não falou muito sobre o assunto. Não é… Não foi muito discutido. E o meu pai, ele tem aquela visão de… “por que que a mulher poderia escolher se ela vai matar ou não um bebê?”, enfim… E minha mãe, ela descobriu porque ela realmente percebeu. Eu não contei nada pra ela. Ela só olhou pra mim: Valentina, você tá muito estranha, cê tá aérea… O que é que tá acontecendo? Cê tá grávida? Eu: Ah, mãe, tou. E comecei a chorar. E aí, e aí a primeira coisa que ela falou foi: tenha um filho e dá ele pra mim que eu vou cuidar dele como se ele fosse meu filho.

– E aí você…. Conversou com ela que isso não era o que você queria e ela depois levou numa boa?

– Não, ela não levou numa boa. Eu falei pra ela que se fosse pra eu colocar um filho no mundo, eu ia ser a mãe. Não… Nunca passou pela minha cabeça deixar os avós criarem, porque, né? A responsabilidade ia ser minha e, assim, eu não ia conseguir viver com uma pessoa chamando ele de irmão para depois ele descobrir que eu era a mãe dele. E aí, a minha, ela mãe é católica e ela frequenta a igreja… E aí ela não gostou. Ela não chegou a me julgar, ela não falou nada de “Ah, Deus vai te punir”, nada disso, mas deu pra perceber que ela tava bem desapontada.

– E ela, e ela não tava presente no processo do aborto? No processo, com você, junto?

– Não. Ela ficou sabendo, achou ruim, tentou fazer com que eu tivesse o filho de qualquer forma. Quando eu disse que não tinha jeito, que eu ia abortar, a gente só falou sobre o assunto depois quando eu falei pra ela: Mãe, não tou mais grávida. E a gente nunca mais falou sobre o assunto.

– Certo… Mas, mas cê teve uma con… Foi só isso ou rolou uma conversa longa sobre o assunto?*longa pausa*Não.

– Não teve muita conversa. Ela deu as opções de como eu podia ter um filho, de como ela ia ajudar, de como ela ia pagar colégio caro, tudo e… Eu já – quando eu conversei com ela, foi uns três, quatro dias depois que eu descobri, então eu já tava com tudo pronto pra abortar, eu não ia mudar de ideia…

– …Mais? *Valentina faz gesto sugerindo que não* Certo e… Depois eu vou voltar para essas questões de… Eu vou te perguntar coisas de como você se sente com, é, o modo como as pessoas que estavam ao seu redor lidaram com a situação, é… Mas eu quero me deter agora no…. No aborto com o Cytotec. Então, foi no… prum hotel?

– Uhum.

– Com alguém ou sozinha?

– Com meu ex-namorado.

– Com o ex-namorado? Só?

– É. Só nós dois. E aí no hotel a gente fez tudo. A gente tava com o número do ginecologista, então a gente ligou para ele sempre. E aí, se eu precisava de alguma coisa, meu ex-namorado saía, comprava… Ele foi um cavalheiro. Ele fez, assim, tudo – se ele não tivesse lá, provavelmente eu teria ficado bem mais apreensiva.

– E por quê que vocês escolheram um hotel?

– Justamente porque na minha casa a minha família não sabia – só a minha mãe – e na casa dele a mãe sabia, mas tinha os irmãos dele lá e eu não ia me sentir muito confortável passando mal no banheiro da casa dele e depois saindo e tendo que encontrar os irmãos dele…. Você sabe-

– Então você preferiu ir prum hotel.

– Você sabe o que acontece? Quando você toma o Citotec?

– Não.

– É… É um remédio abdominal, então o que ele faz na verdade é contrair todos os músculos do seu abdômen. Se você engolir um comprimido ele contrai um pouco. Agora, se você toma muitos – no caso muitos foram três…

– Então você não tomou os quatro?

– Não, um você coloca na vagina.

– Na vagina, é intravaginal…

– E os outros três você toma. Aí o da vagina é pra você contrair essa região aqui do útero mais facilmente e os outros três, eles vão contrair seu abdômen inteiro, porque você tomou mais do que o necessário. Quando ele contrai tudo, você tem diarreia, vômitos, intensa cólica – muita dor – e você sangra muito. Eu passei sete dias sangrando muito mesmo. Muito. O primeiro dia sangrou e… e… No primeiro dia saem pedaços de pele, pedaços de músculo, saem pedaços de várias coisas e, assim, então, como eu já sabia que isso ia acontecer, eu não queria fazer isso na casa dele, porque eu não era tão próxima da família dele, né? Então eu fui prum hotel.

– Lá no hotel vocês… Você tomou os três comprimidos, inseriu o outro na vagina e quando é que começou a fazer efeito? Quando é que…

– Quatro horas depois.

– Quatro horas depois… E você ficou… Você dormiu antes disso? Ficou acordada?

– Eu fiquei acordada. Eu fiquei acordada… E aí eu tomei, é… de tarde, mais ou menos, e eu passei a noite inteira acordada, praticamente, por que cê sente muita dor.

– Certo. Assim, sangrou muito? Depois das quatro horas já tava muito sangue?

– Sim.

– E…

– Primeiro começa com a diarréia e os vômitos. É a primeira coisa que acontece. Só depois que você passa um bom tempo vomitando e tendo diarréia, aí é que você começa a sangrar… E aí escorre.

– E como é que você se sentiu emocionalmente?

– Olha, antes… Eu dei… Eu dei uma pirada. Não, essa é a verdade: eu realmente dei uma pirada. Eu acho que não tem outra palavra pra descrever o que aconteceu comigo, porque… Eu já tive, eu já tenho e eu já tinha histórico de depressão e de crise de ansiedade… Então quando isso aconteceu, foi muito intenso emocionalmente, eu fiquei extremamente deprimida. No primeiro dia que aconteceu, eu tava, na verdade, eu já tava ficando com outra pessoa, eu não tava mais com o ex-namorado e eu acabei contando assim pra ele porque eu tinha descoberto e ele ligou e eu tava com a cabeça em outro lugar… E eu contei pra ele: não, eu tou grávida… Assim, eu conhecia ele há pouco tempo e a gente tava ficando há alguns dias, entende? Mas ele foi super legal também. Ele falou: nossa, eu espero que você supere. Foi super tranqüilo, ele saiu comigo depois…

– Ah, legal…

– Tranquilo, é… Pelo menos, né? *risadas* Poderia ter sido pior. Mas assim, os pri… Os dois primeiros dias eu fiquei extremamente bêbada, assim… Extremamente bêbada. Eu só chorava. Eu fiquei com a minha melhor amiga só chorando, chorando, chorando, chorando, chorando, chorando, chorando… Então quando eu estava fazendo no hotel, eu até tava um pouco mais calma do que quando eu descobri, porque eu já tinha conversado com minha amiga, ela já tinha me dado um super apoio. Meu ex-namorado também… Então eu já tava ficando um pouco mais calma e eu sabia o que é que eu tava escolhendo, porque eu já tinha ido em psicóloga, eu já tinha conversado com outras pessoas sobre a minha decisão e eu sabia que eu tava tomando a decisão certa. Pra mim. Então, no dia do hotel eu estava um pouco mais calma, mas antes… E assim, um pouco mais calma, mas também um pouco…

– Aham… Não tava completamente…

– É, não estava totalmente sã.

– Ham… Tá. Você procurou um hospital depois?

– Procurei.

– Você foi em que hospital?

– Eu fui lá no Santa Luzia e aí, pois é, aconteceu uma coisa lá… E, e depois que eu fui lá é que eu… Foi assim: eu tava um pouco melhor quando eu tive a decisão e aí, quando começou a acontecer os sintomas, eu comecei a ficar um pouco mais desesperada, porque você sente muita dor. Muita dor. Então eu tava, é… Em pânico mesmo, porque tinha…

– Cê tinha medo de morrer ou alguma coisa assim?

– Não, não medo de morrer, mas tem toda aquela complicação de “Ah! E se ficar machucado seu útero? Cê tem que fazer curetagem…” E às vezes pode dar algum problema. Assim, é muito raro. Principalmente com Citotec. Com o Citotec a mulher raramente vai ficar infértil depois de ela fazer o procedimento, mas, mesmo assim você fica com medo. Eu fiquei apreensiva, era uma coisa nova. Eu não sabia o que é que tava acontecendo e eu fui no Santa Luzia e… Foi lá que eu fiz o exame de sangue. Então eles já tinham os meus exames e eles já sabiam que eu tava grávida, né? E aí eu cheguei lá na ginecologista e ele não quis falar pra ela que eu tinha abortado…

– Induzido o aborto.

– É… Então eu só falei pra ela que eu tava morrendo de dor e que eu tava com uma cólica absurda e que eu precisava de remédio. Ela me deitou na… Na… Na maca e ela falou que ia sentir o colo do meu útero pra ver se tinha algum problema, se tava machucado ou se tinha alguma coisa acontecido por causa da gravidez, enfim… Aí ela colocou o dedo, tirou o comprimido, fez aquela cara de professora da pré-escola prestes a dar um sermão…*ela se dirige agora à garçonete* Tem como cocê me traz um expresso pra mim, por favor? Obrigada. Do tamanho do dela. Tirou, fez aquela cara de professora da pré-escola, olhou pra mim e falou “o que é que significa isso aqui?”.

– Nossa, que escrota.

– É… Aí eu fiquei meio, assim, sem saber o que responder, né? Aí ela, “cê não precisa falar, esse aqui é o Citotec, né?”. Aí eu, “é”.  Ela, “então por quê é que você está surpresa com a dor se foi você mesma que provocou isso assim?”. Aí eu olhei assim pra ela, eu, “olha… Eu só tou com dor, eu só vim aqui porque eu quero que você faça alguma coisa a respeito da dor, me dê algum remédio, entende?”. Aí ela, “não, mas foi você que provocou isso, você sabia que isso ia acontecer, foi sua decisão e você sabe que é um crime, né? Mas, ó, não vou te julgar, se você quis cometer um crime, se você quis fazer isso consigo mesma, o jeito agora é você arcar com as conseqüências, que é a dor”.

– Nossa…

– É. Foi totalmente desnecessário.

– Você foi nessa médica sozinha ou…

– Eu tava com meu ex-namorado.

– E ele entrou no…

– Aham…

– E viu quando ela falou isso…

– Viu. Ele ficou bem frustrado com ela.

– E… Enfim, cê conseguiu ver outra médica depois ou essa foi a única pessoa que falou com você e ela não fez nada a respeito?

– Pois é… Aí ela, ela… Depois desse pequeno sermão, as coisas ficaram meio estranhas, né?  O clima ficou um pouco pesado e aí eu falei pra ela só que eu queria Buscopan e quanto de Buscopan que eu tinha que tomar… Eu, eu fui mais direto ao ponto, entendeu? Eu cortei ela e falei “sim, mas tou com dor. O que é que eu faço agora? Já foi feito tudo o que tinha que ter sido feito, o que é que eu faço agora?”. Aí, ela falou que depois eu tinha que fazer a curetagem, explicou os procedimentos depois, né? Do aborto… E aí ela falou assim… E ela sempre falava “Se isso que você fez tiver dado certo. Se isso que você fez tiver realmente… Se você tiver realmente conseguido o que você queria, a sua intenção…”. Como se ainda existisse a possibilidade de eu continuar grávida depois de toda aquela dor, sabe? Ela… Na expressão dela dava pra ver que ela queria…

– Ela queria causar muito desconforto…

– Causar um desconforto… Sim…

– Ela queria sacanear mesmo.

– É. E aí ela falou pra eu tomar Buscopan na veia, só que eu saí do consultório e eu tava tão chateada… E eu tava tão… Chorando tanto, assim, nessa hora, que eu acabei voltando pro hotel e comprando o… O… Os comprimidos mesmo e tomando os comprimidos no hotel sem tomar na veia. Demorou um pouco mais pra fazer efeito, mas não dava mais pra continuar no hospital.

– É… E você precisou fazer curetagem?

– Não. Nada aconteceu. Tá perfeito.

– Cê viu seu ginecologista depois? E quanto tempo depois?

– Eu vi logo depois e… Aí ele… Eu não vou saber o nome… Será que é Papa Nicolau? É aquele em que ele coloca uma câmera, introduz dentro do canal vaginal e dá uma olhada no útero?

– É, também não sei o nome, mas…

– E passa na televisão…

– Depois eu procuro na internet.

– Ele fez esse exame e viu que tava tudo perfeito, que eu não ia precisar de curetagem, que não tinha dado nenhum problema… Ele é bem calmo, sabe? Uma pessoa zen, então… Tudo bem tranqüilo depois.

– E como é que você se sentiu logo depois que você confirmou que você não tava mais grávida?

– Eu fiquei muito deprimida. Eu tive uma crise de depressão que durou alguns meses.

– E você conseguiu continuar na faculdade? Continuar…

– Eu… Na época eu tava fazendo dois cursos. É… Ciência Política na UnB e Direito no Ceub. Na UnB eu reprovei todas as matérias, mas no Ceub eu consegui passar nas matérias, mas mesmo assim eu não acabei meu curso. Eu larguei os dois cursos e fui fazer outra coisa.

– Logo… É… Foi logo depois dessa experiência?

– É, logo depois. É porque… Eu… Eu já não tava satisfeita com Ciência Política. A minha dúvida era se eu…

– Em que ano você entrou em Ciência Política?

– 2009.

– Ah, ta, é que eu fiz Rel antes e ai, tipo, talvez eu te conhecesse de vista…

– Pois é…

– 2008…

– É… 2008, cê fez?

– É, eu entrei em Rel, mas eu mudei de curso também. Mudei pra Sociologia.

– Fez bem *risos*.

– É *risos*, não me arrependo. Só me arrependo de não ganhar tão bem quanto eu ganharia se eu tivesse ficado em Rel, mas…

– Ou você não ganharia nada, né? Quanta gente não ta desempregada… Pois é, eu já tava insatisfeita com Ciência Política, muito insatisfeita, mas eu… Eu tava gostando do Ceub e aí eu fiquei na dúvida, porque o Ceub, é… Em vários aspectos, eu me dava melhor no Ceub do que na UnB. Só que aí, quando eu tive isso, a primeira coisa que eu penei foi que se eu fosse ter o filho eu ia ser praticamente obrigada a me formar em Direito no Ceub, porque… Quais outras opções que eu ia ter, não é? Direito é um curso que tem vasto mercado de trabalho aqui em Brasília, eu podia fazer inúmeros concursos, então eu pensei “bom, eu vou ter que terminar esse curso” e me bateu aquela quase tristeza por eu estar fazendo uma coisa que eu sabia que não era tanto assim do meu agrado, sabe? E aí, depois que eu percebi isso, eu pensei “olha, já que eu não vou ter filho mesmo, é melhor eu fazer o que eu quero fazer mesmo da minha vida, né?” Aí eu larguei os dois cursos… E eu também fiquei muito instável, né? Eu fiquei muito instável, sem conseguir fazer as provas direito… No Ceub só deu certo porque a semana de provas  foi um pouco antes do que aconteceu, então eu ainda consegui passar… Mas foi muito difícil mesmo.

– E você continuou com o seu acompanhamento psicológico? Seu psicólogo – você falou em algum momento que tinha ido ao psicólogo…

– É, eu fazia, eu fazia acompanhamento naquela época.

– Você continuou?

– Continuei.

– Mas, é… Só que ela não te encaminhou pro psiquiatra por depressão nem nada ou te encaminhou?

– Sim, me encaminhou.

– Ahm…  Tá. Agora eu queria te perguntar sobre a sua representação do aborto: o que é que o aborto… O que é aborto pra você? Como que é… Não sei se eu vou conseguir explicar o que eu quero que você… O que eu quero que você transmita, mas… É… Por exemplo, seu pai tem uma representação do aborto com a qual você não concorda, né?

– Aham.

– Que é a de que o feto é um indivíduo com interesse em sobreviver e com direito de sobreviver etc. etc. etc. Eu certamente também não concordo. Ahm… Eu acho que além de um direito da mulher, é uma sabedoria reprodutiva importante a que todo mundo devia ter acesso… E você? O que é que o aborto é pra você?

– É…

– E ao mesmo tempo é uma coisa que me assusta e me dá medo, entendeu? Você não precisa dizer uma coisa só…

– Aham… Olha, eu… Foi uma coisa em que eu pensei muito, não foi… Quando… Sempre que eu falo nessa história, eu me lembro da mãe do meu ex-namorado me falando que eu ia carregar para minha vida inteira, não importa qual fosse a minha decisão. Mesmo se eu decidisse não interromper a gestação do filho, aquilo ia seguir comigo a vida inteira… E assim, eu não entendia o que isso significava, mas hoje em dia eu vejo que realmente foi uma coisa que eu levei pra minha vida inteira… Porque nos próximos anos, os depois – isso aconteceu em 2009 -, 2010, 2011, eu ainda tinha muitas coisas mal resolvidas daquele momento e eu tive que fazer muita análise, eu tive que fazer muito auto-conhecimento para eu chegar hoje em dia e ter a convicção de que eu fiz a escolha certa. É realmente isso. Por mais que no dia em que eu estivesse fazendo, eu achasse que aquela era a escolha certa, eu… Eu simplesmente me forcei a fazer uma decisão, porque só com um tempo foi a ver… o sentimento verdadeiro de que eu realmente tava fazendo a coisa certa…

– Veio se confirmar, se assentar, né?

– Sim…

– É foi um momento de muita atribulação emocional, eu imagino…

– É, até mesmo porque… Vindo da família que eu vim, eu estudei em colégio de freira a minha vida inteira. Assim, eu assistia… Vídeos de aborto. Eu tinha que interpretar a carta de um feto para sua mãe que o abortou…

– *gargalhadas* Credo!

– Sério! “Mamãe, queria ver as borborletas…”. Então, assim, quando eu era pequena, eu nem entendia, eu achava assim que era a maior brutalidade, entendeu? Que uma mulher podia fazer na vida. Até eu entender o que de fato era o aborto, foi… Eu tive de fazer um esforço de desconstrução de tudo o que eu tinha aprendido na infância, então, assim, foi uma criação muito diferente e… O fato do, dos meus pais não aceitarem tão bem, isso também mexe, né? Mas eu, eu acho que hoje em dia, é… Eu fico mais calma com esse assunto, porque eu cheguei à conclusão de que o que existiu não foi… É… Um projeto de um filho, uma semente ou, sei lá. Foi uma possibilidade. A única coisa que tinha era uma possibilidade. Existia a possibilidade de eu vir a ter um filho e existia a possibilidade de eu não ter. 50%, 50%. Eu li várias coisas e o número de mulheres que têm aborto natural na primeira gravidez é muito grande. É… Então, eu não poderia ter certeza de que eu viria a ter um filho com certeza. Isso era só uma possibilidade. Não tava nem na quinta semana de gestação. Não era nem um feto, era um punhado de células. Era só uma possibilidade e única coisa que eu fiz foi decidir. Eu decidi que não vão existir duas possibilidades. A única possibilidade que vai existir é a de não ter um filho. Eu simplesmente decidi qual a possibilidade que ia acontecer. Então, assim, eu acho que às vezes as pessoas ficam achando que, não, que tem o feto, com certeza ele vai vir pro mundo… E se você tivesse sido abortado? Cara! Não  é assim que funciona. Não é “se você tivesse sido abortado”. É “existia uma possibilidade”. Não chegou a existir uma vida. Não chegou a vir a ser.  Não era. Possivelmente. Entende? Então é assim que eu vejo hoje em dia, só que… Eu também não acho que… Outra coisa que as pessoas, elas acabam fugindo muito do assunto, principalmente os mais fundamentalistas, mais cristãos, enfim… Eles acabam achando que legalizou o aborto, todo mundo vai abortar. “Êeeeeh! Agora é que nem pílula do dia seguinte, galera! Todo mundo vai ali na clínica mais próxima da sua casa e faz o aborto”. Nunca vai ser assim e as pessoas não conseguem perceber isso. Também… São vários estudos… Eu li muito sobre o assunto e assim, é… É muito grande a quantidade de mulheres que, sem ter depressão, quando elas vêem a engravidar, têm depressão quando elas fazem o aborto, porque, mesmo que eu não tenha ficado muito tempo grávida, os hormônios me atingiram. Meus hormônios de gravidez, eu senti. Eu senti. Então meu corpo de fato se preparou para receber um bebê. Por isso que quando eu abortei eu fiquei tão deprimida, porque o meu corpo realmente sentiu que “opa, alguma coisa ali que a gente tava planejando não funcionou”, então eu fiquei deprimida, foram várias substancias… E quando você engravida de novo você sente a mesma sensação que você sentiu naquela época, só que agora é outra coisa. Você vai ter um filho… Enfim, se você decidir ter o filho. Então, elas acabam… Elas! Nós! *risos* Nós acabamos revivendo isso. Dá bastante depressão. E eu acho que também é um assunto que as pessoas não, não… Não conversam tanto, sabe?

– É, elas não… É… Eu imagino que elas tenham essa imagem tão… Porque elas não conhecem, elas não sabem o que é um aborto, elas não sabem que não é uma experiência agradável em geral, né? Eu pelo menos nunca ouvi falar em ninguém que tenha gostado bastante de abortar, entendeu? Mesmo quando você tem total convicção de que esse é um direito seu e uma coisa completamente natural, uma coisa antiga, uma, uma coisa… Uma coisa tão natural quanto ir ali e fazer xixi ou tomar um café, eu acho… Abortar não é um coisa cotidiana, obviamente, né? Mas… Eu imagino que, não sei, eu pelo menos nunca tive contato com ninguém que tenha dito diferente, que seja uma experiência legal de se ter.

– Eu acho que a reação mais natural que eu tive foi de um amigo meu português, que eu contei pra ele que eu tinha abortado e aí ele falou assim pra mim “pois é, eu não entendo o Brasil, lá em Portugal as mulheres abortam legalmente há muito tempo”. Assim *risos*, sabe? Foi uma coisa meio que “pois é, né, engraçado isso no Brasil, vocês ainda serem contra. Estranho. São tão parecidos com os portugueses de certa forma, né?”.

– Ahm… É, você já teve alguma outra experiência de aborto, por exemplo, ajudar alguém a abortar depois disso ou antes disso?

– É… Normalmente elas não vêem – quando elas precisam de ajuda, as meninas, elas não falam tão abertamente. É sempre uma terceira pessoa. É a amiga da amiga. É o namorado da garota. Então eu já ajudei terceiros.

– Só que indiretamente.

– É, um conhecido meu, ele… A namorada dele tinha ficado grávida. Aí um grande amigo meu, conhecido dele, me perguntou se eu podia ajudar ela. Ele falou “olha, um amigo meu ta numa situação, você pode ajudar eles dois?”. Eu conversei com o namorado da menina… E também amiga de amiga. “Ah, minha amiga ta querendo abortar. Fiquei sabendo que você já abortou. Pode me dar um luz?” E aí eu ajudo, mas assim, a garota mesmo vir conversar comigo nunca aconteceu.

– Hm… E… Hm… Quanto às reações das pessoas pra quem você conta ou pra quem você contou, teve alguma reação – cê falou do seu amigo português que teve uma reação mais natural -, é… tem alguma outra reação que, que sempre volta à sua cabeça porque foi especialmente ruim ou especialmente boa ou, sei lá, só ruim?

– Bom, meu pai – eu sempre penso no meu pai. Ele não ficou sabendo, eu nunca contei pra ele, mas uma vez a gente tava conversando sobre o assunto. O meu pai, ele adora discutir assunto polêmico. Adora, então ele sempre puxa… E assim, ele não tem tanto tato quanto eu gostaria que ele tivesse, então ele tocou nesse assunto, ele não percebeu que eu fiquei…

– Abalada?

– Desconfortável… E aí ele ficou falando “pois é, não entendo isso…” – eu acho que era nem naquela época que eles estavam discutindo o…  Se a mulher poderia escolher interromper a gravidez do anencéfalo ou não. Foi nessa época desse discussão. E aí ele começou a falar e “Ah! Bom, nesse caso, será mesmo que se nascesse ia ser uma pessoa normal? Ah…” Não sei o quê. Aí já começa: “a pessoa normal…”. Aí eu já fico assim, meio, né? Achando estranho. Normal? Como assim? É, mas tudo bem, é meu pai, a gente não fala nada… Já é um senhor. Só que aí ele queria insistir no assunto e uma hora eu… Eu falei assim pra ele “olha, pai, tinha de ser decisão da mulher, entendeu? Eu acho que as pessoas ficam dando muito pitaco, fala… Usa argumentos com que às vezes eu não concordo. Você usa um argumento cristão e eu não sou religiosa. Eu não acredito, eu não sou católica… Então, assim, não vai ser um argumento que vai me afetar. Eu acho que cada mulher sabe de si. Ele “é, mas se cada mulher sabe de si, então se a mulher quiser matar o bebe dela ela pode, assim?”. Foi instantâneo. Foi uma ocisa que não, não, não ia dar. Eu simplesmente comecei a chorar. Ele não sabia que a filha dele tinha abortado, só que instantaneamente eu comecei a chorar. Só que eu falei muito calma, mesmo chorando muito. Meu pai, acho que ele nem entendeu porque que eu tava chorando tanto e ele também não deve ter pensado muito no assunto “por que será que ela ficou tão incomodada?”, mas enfim… Eu, chorando, eu falei bem calmamente pra ele “mas, pai, a sua opinião fere a minha liberdade e a minha opinião não fere a liberdade de ninguém. Quem é católico não aborta, quem não é, aborta. Não… Sabe? A minha opinião respeita a vontade de todos, a sua, não”. Aí ele olhou pra mim. Ele “não… Acho que você tem razão” e ele mais ou menos aceitou o que eu falei, sabe? Mas assim, foi muito ruim. Foi, ah…

– Eu imagino. Hm… Cê contou pra algum amigo é, fora aquele que você procurou e que você sabia que já tinha tido aquela experiência, e a reação dos seus amigos foi em geral boa? Ruim? Teve alguma reação que chamou atenção?

– Os meus amigos, eles… Eu sou amiga de muita gente diferente, mas meus amigos mais próximos eles são… Pensam mais ou menos como eu na maioria das questões, assim. Talvez não na maioria, mas, por exemplo, eles não são muito, é… Religiosos, por exemplo, não, não, não… Muito conservadores… Então, meus amigos ficaram bem, assim…. Ficaram do meu lado. A minha melhor amiga, mesmo, ela foi a que mais percebeu o que é que tava acontecendo comigo, porque ela me conhece há muito tempo e ela foi a mais sensível, ela… Realmente aceitou, ela… E assim, ela também luta a favor do aborto, ela vai comigo em Marcha das Vadias, então, assim, pra ela foi algo super certo eu ter decidido. Os meus outros amigos também, todos eles foram bem tranqüilos. O único assim foi um rolo que eu tive depois, que eu até decidi terminar a enrolação toda justamente depois do comentário dele. Assim, ele já sabia que eu tinha abortado e aí “ah, não! Tudo bem!”. Olha..

– Sempre começa assim, mas depois

– É a velha história do “eu não sou racista, mas…”. “Não, o que é isso! Abortou? Normal. A mulher tem que decidir mesmo”. Aí eu “é,  né, tudo bem”. Decidi conhecer ele melhor. Aí o primo dele engravidou uma menina. A menina lá tava grávida de, é, seis semanas e ela perdeu o bebê. E aí eu falei “poxa, que chato, eles queriam mesmo ter o filho”. Fiquei chateada. “Poxa, como é que tá sua família? Como é que tá sua avó?” Ele “não, ninguém ainda contou pra mim avó que o neto dela morreu”.

– É, mas ele, tipo, cê acha que ele pensou na sua experiência ou foi uma coisa que ele soltou?

– Não pensou na minha experiência, ele soltou, mas mesmo assim deixou bem claro que ele acredita. “Meu neto”, pelo amor de Deus! Não. Seis semanas, o neto dela morreu? Eu acho isso até meio triste você pensar que, assim, tem netos de 21 anos e eles estão no mesmo patamar que um punhado de células de 6 semanas. Mas, enfim, né? Cada um tem sua idéia.

– E tem alguma coisa que te faz lembrar do seu aborto no seu cotidiano? Quando você não está pensando especificamente nisso, mas a coisa te faz retomar essa experiência?

– Eu tenho alguns sonhos. Às vezes eu sonho.

– Você sonha que você ta abortando, que você teve filho…?

– Eu sonho, às vezes, que eu tive filho. Às vezes eu sonho que a família do meu ex-namorado tá frustrada comigo porque eu resolvi abortar, assim… Umas situações meio… Irreais.

– Certo. Cê acha que é interessante falar mais alguma coisa, que faltou alguma pergunta crucial na entrevista?

– Não… *risos*

– Perguntar alguma coisa? Você quer falar alguma coisa?

– Por que você se interessou por esse assunto?

– Eu sempre me interessei por esse assunto, na verdade. Eu sempre… Eu acho que a minha relação com o meu corpo, especialmente as mudanças pelas quais ele, ele, ele… Passou depois da infância, é… A minha reação sempre foi de muito… Não digo desespero, mas curiosidade e pouco controle… E pouca naturalidade. Eu fiquei muito frustrada quando meus peitos começaram a crescer, porque eu não podia correr mais do jeito que eu corria, ou quando eu fiquei menstruada e soube que ia ter que passar uma semana todo mês usando uma fralda pelo resto da minha vida *risos* ou pelo menos até os 50 anos… Ou… E… Quando… E o fato de eu, ao contrário de um homem, poder transar e nessa transa acontecer uma coisa com meu corpo que vai definir necessariamente a minha vida pro resto da minha vida, porque… Como você falar, você ter o filho ou não, é uma parada que aconteceu e não vai desacontecer. Mesmo que houvesse a possibilidade de que a gravidez naturalmente não fosse bem terminada… Mas, enfim, o fato de poder acontecer uma coisa com o meu corpo com a qual eu não tenha total controle sempre me assustou e eu sempre vi o aborto como uma forma… Como uma arma dos fracos, uma forma de lidar com isso que não era colorida e ideal, mas… É… Era… Transformava minha condição numa condição um pouco menos assustadora.

– Entendi.

– Então isso sempre me interessou. Eu… Descobri na adolescência que minha mãe tinha feito um aborto, então, eu conversei bastante sobre isso com ela. Ele foi bem diferente do seu, por exemplo, em muitos aspectos… É… À medida em que eu fui crescendo eu fui entrando em contato com literatura feminista e fui conseguindo explicitar a minha posição de um jeito melhor, assim… Eu sentia que aquilo não era errado como as pessoas ao redor diziam, mas eu não sabia explicar às pessoas porquê… E eu vejo hoje em dia que é uma coisa que deve… Que, tipo, não deve ficar no… É… Nas sombras… E eu acho que eu posso fazer alguma coisa a respeito. Por isso que eu tive a idéia de fazer essas entrevistas com pessoas que passaram por essa experiência, pessoas que não são ouvidas e pessoas que vão ter o seu corpo controlado… Vão ter uma lei sobre o seu corpo que não foi feita por elas, que… É… A opinião delas sequer foi considerada, porque nossos legisladores não são mulheres, muito menos mulheres que já tiveram uma experiência do tipo, então eu acho importante e eu acho que o que eu estou fazendo pode ajudar. Pelo menos ajuda a mim. Em último caso.

– Aham. Ajuda a mim também.

– Ah, que bom. Fico feliz.

– Mas, pois é… Eu me lembro de eu deitada, num banco, olhando pro céu. Eu fiquei assim, sozinha 3 horas,m só olhando pro céu e eu fiquei tentando imaginar minha vida das duas formas. Minha vida se eu tivesse um filho e a minha vida se eu não tivesse um filho… E assim, absolutamente tudo, tudo o que eu tinha planejado não incluía um filho. Isso foi o mais assustador, porque eu pensei “se eu tiver um filho, eu vou ter que mudar todos os meus planos, todos os meus sonhos”. E aí depois que eu abortei, no ano seguinte eu fiz um mochilão pela Europa, que é uma coisa que eu sempre quis fazer. Eu fiquei lá dois meses, andando pela Europa, gastando pouco dinheiro, vivendo a vida, né? Do mochileiro e, assim, quando eu tava lá eu pensei “esse é um sonho que eu estou realizando e eu só consegui realizar ele porque eu não tenho filho”. Se eu tivesse um filho eu ia ter que estar lá com o bebê em casa, entendeu? E, assim,  eu acho que eu não ia me realizar. Não ia, Infelizmente. Eu acho até que um dia eu possa vir a ser uma boa mãe, mas agora, hoje, eu não quero ter filhos de jeito nenhum. Assim, é realmente nenhuma vontade de ter filhos. Eu sei que é por causa da minha idade. Provavelmente mais para a frente eu possa vir a pensar diferente, mas hoje em dia não tenho nenhuma vontade, então pra mim foi, assim, sabe? Quando você nunca teve vontade, nunca quis ser mãe, nunca se viu naquela situação e de repente você é obrigada? Sua barriga vai começar a crescer e todos os seus planos vão ter que mudar, tudo.

– Fora as coisas profissionais ou de lazer que vão ser redefinidas, o nosso status como mulher muda completamente. Você passa a ser mãe e outras exigências passam a ser feitas. Seu corpo muda e é uma… E geralmente não é uma coisa que valoriza socialmente você, porque nós mulheres somos, em geral, medidas em nosso poder e valor pela beleza… Pelo menos certamente mais que os homens e o nosso corpo muda de um jeito que não é visto como bonito. Mulheres que têm filhos não são, tipo, tão atraentes, não são tão empregáveis. Muitas coisas mudam. É um peso muito grande e a gente é basicamente obrigada pelo Estado a lidar com esse peso que é injusto e que não é o que acontece com um pai, por exemplo. Ser mãe é muito diferente de ser pai.

– É.

– É uma responsabilidade completamente diferente e desproporcional… Pra maior.

– É. Exato. O filho é da mãe. O pai apóia, ele participa… O pai ajuda, mas o filho é da mãe e foi isso outra coisa que eu pensei. O Rodrigo, ele… Eu já conhecia ele há algum tempo, já sabia de uma série de questões que afetavam ele e uma delas era o fato de os pais dele terem se separado quando ele tinha 2 anos de idade e ele ter tido um pai de 15 em 15 dias desde que ele se lembra… E ele sempre falou que ele queria ter filhos, mas que ele queria ser casada e que ele queria estar presente na criação do filho dele todos os dias. Todos os dias que ele pudesse e, assim, por mais que nós fossemos amigos, por mais que a gente tivesse uma relação boa, não existia a mínima possibilidade de nós voltarmos. Não existia. A gente já tinha certeza que nosso namoro já tinha acabado. Tinha certeza. Eu sabia que ele ia ser mais feliz com outra pessoa e que eu ia ser mais feliz com outra pessoa. Não tinha mais porquê nós ficarmos juntos… Então, o primeiro filho dele já ia ser um filho de 15 em 15 dias, se por acaso eu tivesse. Não teria outra opção, porque a gente não ia ficar junto e ele só ia ver o filho dele de 15 em 15 dias. Eu tenho certeza de que isso ia ser uma frustração imensa pra ele e ele ia… Ele vai se casar. Ele ta até noivo agora de outra menina e os dois se dão super bem. Eu sabia que ele provavelmente ia se casar, porque sempre foi a vontade dele. Então imagina se eu tivesse tido o filho, ele tivesse se casado com outra mulher… O filho ia ver ele tendo uma família e convivendo todos os dias com aqueles filhos sabendo que ele nunca ia fazer parte daquilo, porque o pai dele é um pai diferente, sabe? Acho que ia ser ruim pro filho e que ia ser péssimo pro Rodrigo. Péssimo, porque é uma coisa que ele sempre falou, sabe?Então eu pensei nisso e eu fui bastante egoísta… Me assusta muito. Só você abrir o Facebook: mulher que tem filho, sério? Sei lá…  Eu tou julgando. Eu sei que se coloca foto do filho na foto de capa ou na foto de perfil… Sempre tem um filho envolvido. Ela já não é mais só ela, ela é a mãe. Ela já vem atrelada ao filho e, assim, todas elas falam muito sobre o filho e isso me assusta. Eu sou muito eu ainda, sabe? Eu ainda tou me conhecendo, eu ainda tou me buscando, eu ainda tou sendo pra eu ter um filho e deixar de ser só eu, deixar de ser só a Valentina que eu conheço e ter de vir a ser mãe. Então, me assustava e eu não queria. Eu queria primeiro ser, depois eu…

– Sei qualquer outra coisa.

– É.

– Mãe ou qualquer outra coisa. Boto fé. Pô, Valentina, obrigadíssima.