Entrevista conduzida na tarde do dia 07.06.2013 em um Bar relativamente cheio da 411 Norte (Brasília – DF). A entrevista seria interrompida em certos momentos por pedidos de bebidas e tira-gostos à garçonete, idas ao banheiro, cumprimentos a amigos etc.
– Então, Giovana, eu vou começar com umas perguntas básicas só pra traçar o seu perfil. Qual é a sua idade?
– Tem que falar a idade de verdade?
– Ah, pode ser aproximada.
– 23.
– 23. Certo. Qual é a sua raça, etnia e/ou cor de pele?
– Então… Eu me declaro parda, por ser filha de mãe branca e pai negro.
– É… Sua escolaridade?
– Tou cursando graduação. Ensino superior incompleto.
– É… Qual é a sua identidade de gênero? Feminina ou masculina?
– A identidade de gênero, feminina.
– Você se sente à vontade para falar, é… Da sua opção sexual?
– Sim.
– Qual é a sua opção sexual?
– Bi.
– Você tem renda própria?
– A pessoa tá inquieta, né? * risos * É… Mais ou menos, mas eu falar isso implica um pouco eu me identificar.
– Não, tá certo…
* Giovana fala, então, um pouco sobre sua situação financeira. Essa parte da entrevista foi cortada para não prejudicar o sigilo sobre a identidade de Giovana*
– … Se eu fosse somar tudo, daria uns R$ 1100,00, por aí.
– Tá, eu só vou botar essa parte então. Ahm… Você recebe auxílio financeiro de seus pais?
– Não, nenhum.
– E de alguma outra pessoa que não seja seus pais?
– Não.
– Você mora aqui na Asa Norte?
– É, em apartamento funcional – acho que poderia colocar. Acho que é mais fácil…
– Você é natural de onde? Você é aqui de Brasília mesmo?
– Então, eu nasci em São Paulo, só que eu costumo dizer que eu sou natural de Minas, porque eu me criei lá. Então eu acho que assim, meu perfil – se fosse pensar num perfil de criação, seria o mineiro, com que me identifico.
– Você já morou em São Paulo, Minas…
– E aqui.
– Certo. Hm… Você tem filhos? Está solteira? Casada? União Estável?
– *Risos* Acho que solteira.
– É… Agora eu vou começar a tratar da experiência do aborto especificamente.
-Tá.
– Quantas experiências de aborto você já teve?
– Uma.
– Como foi que você descobriu que você tava grávida, nessa experiência?
– Então, né? Assim, eu tinha namorado… A gente tava numa relação um pouco conturbada, assim…Termina, não termina, mas, enfim… É… Fazendo um resumo, um namorado de mais ou menos dois anos e meio e aí a gente acabou fazendo sexo sem camisinha, enfim… E no dia eu fiquei meio assim: véi, acho que isso… Não sei. Sabe aquele dia em que você fala assim “véi, deu merda”? Aí esse “deu merda” foi passando…
– Você já tinha feito sexo sem camisinha antes e não tinha sentido isso?
– Sim, já, já, mas assim… O que eu costumo dizer é que nessa época em que eu tava com ele, eu tava numa situação estável, assim, de usar anticoncepcional, de usar camisinha, tipo, mas sim, já fiz sexo sem camisinha, não aconteceu nada e… Não sei, foi irresponsabilidade, foi por sorte, mas não era uma situação, sabe? É… Como é que eu posso dizer? Frequente.
– Frequente.
-Entendeu? Foi uma coisa, tipo assim, aquele dia, dá errado, entendeu? E eu ainda tava naquele intervalo de – sabe quando você para de tomar anticoncepcional para a menstruação descer?
– Aham, sei.
– Então, não sei se tem a ver… Não sei, mas… Aí passou, daquilo passou um mês e a minha menstruação não veio. Eu esperei um pouco, porque a minha atrasa muito. Aí eu esperei um pouco, esperei, esperei… Aí nada, nada… Aí eu comentei com as minhas amigas – eu tenho umas amigas meio intuitivas. Aí elas “véi… Sei não, viu? Tou achando que cê tá”… E eu tava passando muito mal, sabe? Aí, tipo, me senti muito estranha também… Aí eu peguei: tá, vou fazer esse teste logo. Aí eu liguei pro meu namorado, fiz o teste e… Aí eu…
– Foi teste de farmárcia normal?
– Não, eu já fiz logo o de sangue, porque eu queria ter certeza, entendeu? Aí eu fiz o teste e era, era um mês e cinco dias… Não, era um mês e cinco… Era um mês e alguma coisa. É, tava quase completando dois meses já. Na verdade eram quase dois meses, faltava acho que três, quatro dias para engatar dois meses, faltava uma semana… Mas, enfim, eu já sabia, eu só tava querendo mentir pra mim mesma, entendeu? Aí deu isso.
– Você sentiu as mudanças no corpo…
– Pois é, eu, eu… Foi uma coisa muito estranha, porque eu comecei a sentir um sono muito estranho, sabe? Um sono de acordar e ter dormido muito, muito, muito e acordar com sono, só que não era uma coisa saudável… Se eu ficasse na cama, eu ainda ficava me sentindo muito mal… Tava me sentindo muito mal. Foi uma experiência… Bem intensa, assim, sabe?
– Eu imagino. É… Tá… E quando é que você começou a cogitar a possibilidade de fazer o aborto? Como foi que você começou a pesquisar sobre o que fazer?
– Então, o que aconteceu foi o seguinte – como eu, né? Eu tenho contato com movimento feminista, né? Eu sou feminista, essas coisas, né? Então as meninas têm uma cabeça mais aberta com relação a isso. Então o que aconteceu foi: quando eu tava desconfiada e tava conversando com as meninas e tal, eu já tava pensando na possibilidade de que, se eu tivesse, eu provavelmente faria… Mas, assim, não tinha uma decisão de fato, porque eu não tinha um resultado de fato, né? Só que eu fui fazer um exame de manhã, umas oito horas da manhã, e quatro horas da tarde foi o resultado… E aí, assim que saiu o resultado, eu peguei o resultado à noite – meu namorado que pegou, eu… Véi, eu tava num estado psicológico…
– Imagino… Quando você foi fazer o exame de sangue pra descobrir, ele foi com você? Alguém foi com você?
– Ele foi comigo e um amigo meu foi comigo. Assim, tipo, eu não tinha a menor estrutura pra ir sozinha, sabe? E… aí eu fiquei sabendo, liguei pra minhas amigas e falei, e aí pro pessoal começar a ver se conhecia alguém que sabia de alguma coisa e tal… E aí, no outro dia, a gente foi fazer, tipo, os exames de check up – transvaginal, medir pressão pra ver se a minha pressão não tava alta ou muito baixa… Enfim, eu já sabia que eu não tinha diabetes e tal, por conta do sangue que ia sair… Essas medidas de prevenção. Logo de noite a gente pegou e fez, assim, eu não tive muito a coisa de ficar digerindo minha decisão não.
– Tem algumas mulheres que fazem o ultrassom e chegam a ver o feto. Não foi o seu caso, né?
– É, eu não olhei. Eu não olhei, tipo eu… Tipo assim, eu realmente tomei a decisão num contexto… Eu acho que eu posso dizer que eu pensei sim antes. Como eu já tava desconfiada, talvez esse processo desse mês… Eu fiquei pensando assim, se eu faria ou não. Teve umas coisas bem tensas que rolaram comigo, porque… Tipo assim, religião nessa hora pesa.
– Você é religiosa?
– Não, não sou religiosa, mas, assim, eu sou de terreiro de candomblé e a gente tem uma conversação mais ampla sobre isso e tal… Só que, mesmo assim, eu tinha um amigo – tive um amigo, assim, que falou pra mim “ah, se você fizer isso você não vai poder mais ir no terreiro de fulano de tal”… E, assim, eu não vou dizer pra você que a minha visão ia mudar por conta disso, mas eu acho que…
– O seu amigo disse que ele ia contar para as pessoas do terreiro?
– Não, ele não falou que ia contar. É porque, assim…
– É porque você não ia… Você deveria tomar a decisão de não ir?
– Não, a questão é que terreiro de candomblé tem muito uma crendice da coisa do oráculo, da coisa dos búzios, da coisa do… Então, assim, mesmo que eu contasse ou não, existia uma possibilidade deles saberem. Isso é uma coisa mística da gente. Se eu falar para você, talvez você não consiga entender, mas…
– Não, que é isso, eu entendo perfeitamente. Eu sou de Salvador *risos*…
– É, pois é.
– … Então eu convivo muito…
– Você sabe aquela coisa da sua mãe bater o olho em você e já saber se você tá grávida ou não? Tipo… É coisa desse tipo, então, assim, eu acho que poderia e, e… No meu caso, era uma coisa muito séria, porque, assim, eu tenho vida de terreiro mesmo, sabe? Eu vou em terreiro frequentemente, eu incorporo… Então isso pra mim é uma coisa bem pesada…
– Bem importante…
-Era uma coisa bem pesada…. E foi – eu, eu decidi, assim… Eu falei, “olha, se realmente eu tenho uma religião que não aceita minhas limitações é… Financeiras, emocionais, é… E várias outras coisas” – e não a religião em si, mas o terreiro específico… -, eu falei, “foi mal”, mas, sabe? Eu acho que o meu princípio ético, ele fala mais alto nessas horas. Ele sempre falou mais alto, né? Então, assim, eu fiz, eu fiquei muito mal de ter que ter ouvido isso, ainda mais, assim, de uma pessoa que eu considerava, assim… Porque eu não sei, sabe? Eu acho que quando a gente fica grávida, aquela coisa da sensibilidade, sabe? Tipo quando eu… Sabe quando você tá menstruada e que você fica aquela meleca? Imagina aquilo multiplicado dez mil vezes. Cê fica muito sensível. Qualquer coisinha que falam com você, você fica muito mal. Então acho que não era o momento, sabe? Poderia, não sei…
– Você acha que foi insensível da parte dele e meio desrespeitoso.
– Achei meio tenso, assim, sabe? E não era uma pessoa que… Não era uma pessoa que eu esperava. Não convivo muito em meios em que as pessoas, é… Teriam muito preconceito com relação a isso, sabe?
– Tá, aí você foi fazer os exames e logo depois você resolveu que… Você fez os exames para saber se você podia fazer o aborto…
– Sim, se eu podia. É porque que eu faria com o remédio, né? O princípio ativo acho que é Misoprostol. Eu usei o Cytotec.
– Misoprostol?
– É, Misoprostol é o princípio ativo, eu acho… E parece, pelo que a gente tem informação de pesquisa e tal, que não é nada fundamentado, é que parece que ele dá problema quando a pessoa tem diabetes, por conta do sangue que desce, né? Pode dar uma hemorragia mais séria.
– E aí não consegue coagular, né?
– É e parece que pra quem tem pressão alta ou pressão baixa, porque quando você toma o remédio ele mexe na pressão. A sua pressão abaixa muito ou – eu não sei se quem tem pressão alta levanta… A minha pressão tem mais tendência a ser mais alta. Aí eu não sei, mas a gente resolveu fazer pra ver se ia ter problema ou se tá tudo normal – ou se também tivesse algum problema com a gravidez, poderia dar um… algum… Acho que uma prevenção mesmo, né?
– Certo… E aí quando você descobriu que tava tudo dentro do possível de se controlar, ok, você resolveu comprar o remédio você mesma ou alguém te ajudou com isso?
– Pois é, aí o pessoal tinha os contatos e o meu namorado foi, foi efetivamente comprar, fazer a transação… E aí, é… Enquanto a gente tava no hospital, nas clínicas resolvendo essas coisas, porque levou o dia todo, né? Aí ele foi fazer a coisa administrativa, né? Aí ele pegou, foi lá, pagou, trouxe tudo.
– Certo… E aí você falou com ele como é que foi isso? Conversou com ele sobre como ele descobriu onde comprar, como é que foi pra comprar?
– Pois é, mas é que pra comprar foi com um amigo nosso que tinha o contato, assim… Essa parte de saber quem sabia, ter amigo, entendeu? Isso foi tudo com as minhas amigas.
– Essas meninas tinham feito aborto já ou conheciam alguém…
– Não, elas conheciam. É como eu falei, assim, é aquela coisa. Dependendo do meio em que você vive você tem mais contato com isso, né? E elas tinham contato mais com isso assim… Por conta de que as meninas são pró-aborto e aquela coisa toda, né? Mas tem todo um cuidado por conta de prisão, enfim…
– Essas meninas passaram o contato para o seu namorado…
– Foi… E aí falou onde que ia encontrar e ele foi lá e pegou.
-Certo… E isso foi com uma pessoa que vende essas coisas ou com uma pessoa que tinha por algum outro motivo?
– Cara, eu não sei. Eu sei, tipo, que parece que é uma menina que vende, só que ela, tipo, passou pra outra pessoa passar pra ele, sabe? E eu não sei, assim… Eu não… Essa parte…
– É que eu tou comparando com o caso que eu entrevistei há dois dias atrás, em que a pessoa também comprou Cytotec, mas numa situação completamente diferente. Ela foi na Feira do Paraguai.
– Não, essa – inclusive a gente pensou com relação a isso, porque eu não tinha os contatos, né? Só que o problema é a falsificação. Tem muita falsificação, então a gente ficou preocupado por dois motivos: primeiro, porque o que seria na falsificação? O que teria lá, né?
– É, podia tanto não fazer efeito nenhum como podia fazer um efeito bizarro, né?
– É e… E… Tem essa segurança, né? Então por isso é que eu preferi comprar com pessoas de confiança, sabe? Então…
– Tá certo. Beleza. Então ele comprou… Cê sabe mais ou menos quanto foi?
-Foi, é… 50 reais cada comprimido. A gente comprou 4. Não cheguei a usar, mas a gente comprou 4.
– Cê não usou os comprimidos?
– Não, os 4 não.
– Ah, tá.
– Eu usei só 2.
– Certo, vamos chegar lá. Aí… Tá, ele comprou os comprimidos e… Quando foi que você usou? Quando, como, onde…
-Você quer a descrição completa? Tá. Assim, foi na casa dessas amigas minhas, porque, enfim, elas tinham estrutura: tinham carro, caso precisasse me levar ao hospital. Essas coisas, entendeu? E aí o procedimento é o seguinte: você toma um e coloca um na vagina, né? Tipo, o mais fundo que você conseguir. Geralmente a gente usa aquele negocinho de colocar pomada anti-fungo. Não sei como se chama aquilo. Aí, usa com aquilo. Foi uma trabalheira danada, porque… Eu tenho um probleminha de ir no ginecologista pra essas coisas, sabe? E eu entro meio em pânico, sabe? E aí pra colocar…
– Você tem medo de ir no ginecologista?
– Pois é, ginecologista já me machucou muito.
– Sério?
– É. Tipo, meio que, vai colocar alguma coisa, eu travo na hora. Então, assim, as meninas tiveram que ter uma paciência de Jó para conseguir colocar, porque eu não ia conseguir… Porque minha pressão baixou e eu meio que comecei a me tremer, sabe? E aí, é… Ficou difícil, né? Como é que você ia… Eu não conseguia colocar em mim. Então elas tiveram que colocar e tipo… Além de ser constrangedor pra mim, pra elas, foi uma situação bem…
– Imagino. Essas experiência que você teve no ginecologista, é, tipo… Foi erro médico ou você acha que foi proposital?
– Cara, eu não sei se sou eu que tenho o canal vaginal pequeno, mas, assim, eu sinto muita dor. Tanto que, quando eu fui fazer a transvaginal, cara, eu chorei no consultório de dor.
– E o médico não te falou por que que tava te incomodando tanto?
– Cara, nunca. Eu, eu fiz, assim… Umas três vezes seguidas que eu fui no médico, só um, que ele teve muito cuidado. Doeu, mas, assim, teve mais cuidado e aí ele conseguiu fazer machucar menos, mas eu já fui numa médica que eu fiquei dois dias de cama.
– Caraca.
– Tipo assim, eu não sei. Eu acho que é um negócio bem grande, aquele que se usa pra fazer o Papanicolau. Eu não sei se foi porque eu fui num hospital público, entendeu? Não sei, mas, enfim, na transvaginal também…
– Mas quando você faz sexo com penetração, te machuca?
– Dói um pouco, mas não aquele surreal…
– Engraçado, porque…
– Velho, não é assim… E as meninas viram, porque, quando eu fui fazer – e com a gravidez não podia en-cos-tar! Assim… Tava num nível que não podia encostar.
– Eu nunca ouvi falar nisso.
– Teve uma amiga minha que falou – foi a primeira vez que eu ouvi uma menina falando que tinha problema em usar absorvente interno, porque geralmente as meninas falam: ah, não sinto nada. Aí eu tava conversando com ela e ela falou: véi, em mim fica arranhando. Eu falei, é exatamente a mesma coisa.
– É, em mim também, só que eu faço esses exames intravaginais, me incomoda, mas não dói tanto, entendeu?
– Assim, a minha mãe já fala a mesma coisa que eu, que ela, tipo assim, ela vai fazer e ela leva o negocinho, ela compra na farmácia e leva o mini ou o “p” para fazer… Porque quando você chega no hospital público eles têm um tamanho só e pronto, entendeu? E assim…
– Ah, então deve ser do seu corpo mesmo, genético, porque sua mãe sente, né?
– Pois é, deve ser. Eu devo ter sensibilidade onde as pessoas não têm, entendeu?
– É… Tá, aí voltado para a experiência do aborto: certas meninas te ajudaram a pôr o intravaginal. Cê tomou o comprimido antes do intravaginal?
– É. 20 minutos antes. 20 minutos ou meia hora, esqueci exatamente o tempo.
– Alguma delas já tinha feito um aborto alguma vez?
– Não, elas já tinham presenciado. Já tinham ajudado outras meninas a fazer, mas nunca tinham feito não. Até porque as meninas são lésbicas, então, aí… Entendeu?
– Não tiveram a ocasião *risos*
– É * risos * nunca tinham feito não, mas já tinham presenciado. É, enfim, é isso. Acho que você vai perguntar mais coisas, depois eu respondo o resto.
– É e como foi a resposta do seu corpo? Assim, quanto tempo depois você começou a sentir?
– Então, pois é, isso é que foi o louco, porque eu… Eu fui – sabe quando você vai parar no parapeito de um prédio, assim, e você fala assim “eu vou morrer”. Tipo, eu pensei mesmo. Sei lá… Eu vou morrer ou vou ficar com alguma sequela ou tipo, assim, imaginei a coisa do além, sabe? Cara, foi uma coisa muito tranquila. Muito tranquila. Assim, depois que eu passei aquela tremedeira, o nervosismo, sabe? Depois que elas conseguiram colocar, que eu fiquei de boa, aí eu andei para lá e para cá – nada, não deu o efeito de nada, não aconteceu nada e eu falei: meu deus… Eu comecei a ficar desesperada porque outra coisa. Eu falei: esse trem não vai dar certo. Como é que eu vou fazer? Onde é que eu ou arrumar dinheiro para ir numa clínica, né? Aí já comecei a tramar outras coisas, mas nada, nada, nada. E a gente resolveu fazer de noite porque todo mundo ia estar em casa. Porque de dia, como as meninas estudam, trabalham… Não ia ter ninguém. Aí eu tomei mais ou menos meia noite, onze e quarenta, e aí foi indo, foi indo. Esse trem foi fazer efeito mesmo, era seis horas da manhã.
– Nossa.
– Seis horas… E foi assim, eu juro por deus, eu não sei se foi porque minhas cólicas vaginais são fortes.. Eu já tive cólicas vaginais muito mais fortes, muito piores. Assim, lógico, quando desceu o primeiro sangue que desce, mesmo, o… Como é que chama? A bolsinha, né? Mas quando desce a bolsinha, tipo, lógico, você sente, assim, tipo um descolado mesmo.
– Mas nessa hora você tava deitada ou em pé?
– Não, tava deitada o tempo inteiro. Aí depois que desceu esse que descolou, desceu isso – que eu também não olhei, que foram as meninas que olharam -, eu, tipo, voltei pro quarto e eu comecei a sentir muita cólica. Muita contração, muita contração, muita contração… E eu sentia mesmo uma dificuldade de levantar, arquear o corpo. Não era que tava doendo, mas era tipo – imagina quando você tá com muita fome, o seu estômago tá com aquele buraco… Era um buraco que eu sentia, sabe? Então, tipo assim, se eu levantasse, ia doer. Eu fiquei sentada, tomei banho sentada… Foi de boa. Não foi uma coisa…
– Você sangrou muito?
– Mais ou menos… Eu passei uns dois dias sangrando. No primeiro dia foi mais ou menos um fluxo em que de uma eu uma hora um absorvente noturno, sabe? Mas nada surreal. Inclusive depois que começou a acontecer, que as meninas viram a bolsinha e tal, aí eu comecei a ficar tranquila, sabe? Aí eu comecei a ficar, tipo, aliviada, porque, sério, véi, eu cheguei a imaginar: não, morri, tou no céu e o céu é assim, entendeu? Foi uma coisa muito… Tipo assim, o custo psicológico e emocional é um negócio que você… Eu acho que é de tanto se fazer a propaganda de que “Ah… Você vai morrer, você vai ficar com sequela, você vai sair…”. Gente, pensa, eu sou uma pessoa que eu tenho graduação, eu tou cursando graduação. Você abstrái de um jeito que você acha que vai sair braço de criança! E tipo assim, eu tava num período em que o meu embrião tinha 1 centímetro. Era 1 centímetro vírgula 3. Eu tenho os exames lá em casa. Eu acho que não chegava nem a 1 centímetro e você entra numa pala tão maluca de ver aquelas paradas na internet – inclusive eu nem olhei, mas eu já sabia, já tinha visto há muito tempo atrás. Rola uma parada tão maluca de propaganda mesmo, assim, sabe? Anti-aborto… Que tu acha que vai descer um braço de lá. É uma coisa assim transcendental. Você sabe de todo o processo embrionário, do processo… Onde que começa formar o sistema nervoso, tudo. Só que assim, você fica irracional. Você fica uma pessoa irracional.
– Cê não ficou com medo de perder muito sangue?
De ter hemorragia…
– Sim… Eu tava num medo tão grande de morrer que eu acho que a parte do processo eu meio que pulei.
– Foi tipo um sonho?
– É, tipo, eu fiquei assim, eu tou fazendo uma parada em que eu corro risco de vida. Se eu ia morrer por sangue, por taquicardia, por…
– Não interessava.
– Não interessava, sabe? Eu simplesmente confiei nas meninas no sentido de “aqui tem um carro e vocês vão achar alguém pra me atender”.
– Boto fé.
– E o medo de ser presa também…
– E você não fez em casa principalmente por que elas tinham carro pra te ajudar…
– Porque elas tinham uma estrutura melhor e porque também eu tava mais com meninas, assim… Ia ser meio estranho, por mais que eu tivesse meu namorado, meu amigo lá, tipo assim… Imagina dois caras me colocando… Sabe? Enfiando um negócio dentro de mim? Se você já tem pânico com ginecologista, com as meninas, imagina se fosse… Mesmo que seja meu namorado e tal… Lógico que você fica mais à vontade com mulheres, assim…
– Certo… Aí, tipo, você ficou sangrando uma duas semanas, você falou?
– Não, eu fiquei dois dias direto, aí depois eu… Como eu tomei, eu também, eu, eu… Falei com uma menina que tinha feito antes. Eu esqueci de falar isso. Eu cheguei a conversar com uma menina que tinha feito – não foi a que me deu remédio nem nada, mas essa menina, ela falou que eu… Era bom eu tomar um… Tem um remédio que você toma junto com o Misoprostol, depois que o Misoprostol faz o efeito. É um remédio que custa baratinho na farmácia, 6 reais, que é para pessoas que fizeram cesariana. Ele limpa todo o colo do útero e ele evita você ter que fazer curetagem.
– Aí você não fez curetagem?
– Não, não fiz, porque eu tomei esse remédio depois. Assim, na verdade, eu dei uma sorte do tamanho do universo, assim, sabe? Que eu não sei, falam que é só os orixás lá em cima mesmo, porque não, sabe?
– Boto fé.
– Assim… Acho que é Methergin que chama. Methergin, se eu não me engano… E você compra sem receita, sem nada.
– Beleza… Hm… E, assim, seu corpo não ficou… É, tipo, dolorido, logo depois não?
– Não, assim, é igual eu falei: eu fiquei com dor, assim, no sentido de… Como é que fala? Menstruação mesmo, sabe? E depois, com o Methergin, eu passei a sentir um pouco de dor. Porque, assim, você já tá naquele processo em que você está tensa. Passei mais ou menos uns quatro dias sentindo cólica. Aí, assim, com Misoprostol. Então, é mais do que um… Não é que a dor esteja intensa, é que é uma dor tão frequente que aí você começa… Sabe aquela história de dor crônica? Ao mesmo tempo que você acostuma, você também começa a ficar estafada de estar sentindo aquela dor o tempo inteiro… E aí, depois, com o Methergin, aí eu comecei mesmo a, tipo – e também porque eu saí da casa das meninas e tal, vim pra casa… Aí tem aquela coisa do medo, de começar a dar aquela… Eu digo e falo: o pior da questão do aborto é o psicológico.
– É, eu ia te perguntar agora como é que você psicologicamente depois que o procedimento acabou. Você viu que tinha dado certo e você disse que ficou aliviada, mas, pelo menos o mais comum que eu tenho escutado é que você fica em geral muito deprimida e que é muito difícil retomar a vida normal. Não sei se isso aconteceu com você.
– Então, é porque, assim, eu acho que eu… Eu já tinha pensado sobre isso mesmo. Eu acho que o meu processo foi um pouco diferente, porque, assim, eu já tinha uma concepção de que eu sou pró-aborto. Eu acho que as mulheres têm que ter o direito de decidir sobre o seu corpo, sacou? E também, apesar das questões naquele processo terem pesado – a questão religiosa, a questão moral, sabe? É…Também essa questão de achar que está matando um indivíduo, sabe? Toda essa questão pra mim, de certa forma, eu acabei superando quando eu tomei a decisão, entendeu? Agora, o que eu fiquei mal – e assim, é uma coisa que, de certa forma, eu me acho injusta de dizer – foi com a reação das pessoas, sabe? Com a reação, é… Com a reação e com o tratamento. Primeiro, com esse amigo meu, que era muito amigo mesmo, sabe? Muito amigo, sabe? Tipo, imagina seu melhor amigo. Eu percebi uma reação, tipo de, assim… Aconteceu a questão na terça-feira e ele ficou sabendo disso na terça-feira. A partir do momento em que ele ficou sabendo, ele não me ligou, não me confortou… Ele não falou comigo, ele não perguntou se eu precisava de alguma coisa. Nada. Depois que ele soube do, do… Como é que fala? Do teste, ele não quis nem mais, véi… Isso é muito estranho, sabe? E aí, mesmo lá com as meninas, assim, sabe? Sim, elas me ajudaram muito. Elas também estavam num processo de pressão muito grande e eu entendo isso. Medo de várias coisas. Medo de ser presa, medo de alguém descobrir… Medo de eu passar mal e, tipo, morrer lá, sabe? Tipo, véi, tinha “n” coisas, mas eu senti assim, sabe? Que eu era meio que um peso, sabe? Eu fiquei lá quatro dias e eu me senti, assim, é… Não é que elas me trataram mal, mas, assim, sabe quando você sente que você tá, tipo, incomodando e invadindo? E eu tava morrendo de medo de voltar pra casa. Morrendo. Assim, eu tinha muito medo de voltar pra casa e acontecer alguma coisa em casa e não ter ninguém comigo, sabe? E como eu tava numa relação com meu namorado de… Tipo assim, a gente acabou voltando depois disso. Só que, até esse período, a gente tinha terminado, então, assim, eu não queria que ele ficasse aqui em casa, eu não queria… Enfim, eu não queria que ele ficasse perto de mim, entendeu? Apesar de ele ter ajudado em todo o processo financeiro, em toda a questão ele tava ali presente… Eu não queria, sabe? Eu não queria, tipo, que ele fosse, tipo, o meu… O meu alicerce emocional.
– Ah, sim, eu esqueci de te perguntar uma coisa antes. Como é que… Não, desculpa. Termina aí de falar.
– Tá. Então, eu me senti muito mal com relação a essa questão. A postura de, de… Pessoas que se dizem pró. Assim, eu escutei de uma das minhas amigas que “Ah, se fosse comigo, eu não faria”, sabe?
– De uma das meninas que ajudou no procedimento?
– É. “Eu não faria…”. Eu escutei muita pagação de sapo também… E como eu disse, nesse momento, você tá muito sensível… E como mesmo depois que desce e que você fez o aborto, as suas taxas hormonais ainda tão lá em cima, você ainda sente enjôo… O seu corpo entende que você tá grávida e demora um pouco pra entender que você não tá… e eu comecei a ficar mal, mais decorrente dessa situação de estar sendo julgada por pessoas que, véi…
– Iam ser as primeiras a te apoiar.
– Não, que eu jurava que iam me apoiar incondicionalmente, sacou? Tipo, ao mesmo tempo que eu senti uma pressão pra fazer, sabe? Tipo, “ah, você tem que fazer porque você não tem condições, você…”. Aí vem todo o contexto da UnB, que, aí você tem que dizer *parte do relato aqui foi omitida para preservar a identidade de Giovana* Caso eu estivesse grávida, era só o período da gravidez que eu podia ficar no apartamento. Quando eu tivesse o filho, ou eu dava um jeito, como de o outro, né? De… De… Sei lá, mandar mu filho não sei pra onde, pra continuar, véi, estudando, porque eu não ia poder morar dentro de um apartamento da UnB. Não pelas vias oficiais, com uma criança.
– Ah, é?! Não?
– Não.
– Nossa, que escroto isso!
– Inclusive, é uma discussão, porque, quando eu morava lá na CEU (Casa do Estudante) , aconteceu isso. Uma menina acabou ficando grávida e o menino também era da CEU. Aí, meio que se juntou – tinha um e-mail comum e o pessoal meio que se juntou pra falar que ela tinha que sair, porque não ia dar certo criança aqui na CEU.
– É, é foda.
– É, acho foda, mas o período de amamentação, véi, nem na prisão, véi. Nem as presidiarias. Elas têm o direito de amamentar seu filho e na CEU você não pode. O que eu coloquei em determinado momento foi o seguinte: se ela vai sair de dentro de casa, se ela vai ser prejudicada, o cara também vai ter que sair, porque o cara também mora aqui. Porque só ela vai ter que sair? Aí todo mundo caiu em cima de mim: “Ah, porque é ela que tem que amamentar”, porque ela isso, porque ela aquilo.
– Nossa senhora, que coisa absurda! Eu não fiquei sabendo dessa história. Muito trash! Mesmo assim. Mãe não tem o direito de ser estudante, agora, né? Que coisa escrota.
– Assim, e eu fico muito puta de falar disso, porque, tipo assim, a culpa é nossa. A culpa é sempre nossa, sacou? “Ah, fez sexo sem camisinha? A culpa é sua”. “Ah, a camisinha estourou? A culpa é sua”. “Ah, o anticoncepcional não deu certo? A culpa é sua”. É tipo, é tudo culpa sua, sacou? É como se você, véi, tivesse o quê? Cê transou com uma árvore, foi? Tipo, a outra pessoa que tava com você não tem culpa nenhuma?
– Boto fé. Inclusive já existe contraceptivo masculino que não vai pro mercado exatamente porque as pesquisas de mercado mostram que os homens respondem que não tomariam… E os efeito colaterais, parece que são bem menores que os efeitos colaterais da pílula para a gente.
– É, inclusive eles ficam com a libido mais alta.
– Ah, é?
– Eu já vi uma parada, acho que foi um pesquisador brasileiro que lançou… É da semente do algodão. Alguma coisa assim. Eles usam no interior pra deixar férteis os bois, para, numa época determinada eles fertilizarem as fêmeas. Tipo, é…
– É uma coisa bem tranquila, né? *sobre o caso da CEU* Ah, mas é muito foda uma pessoas estar naquela situação.
– É, é muito foda. Só pra fechar o raciocínio, é… Foi isso, assim. Eu senti muita cobrança com relação a ter acontecido um acidente, mesmo das pessoas, né? Que se dizem feministas. Que são! Que me ajudaram, que eu conheço, que eu respeito demais, mas, assim… Eu senti, muito, véi, tipo, preconceito mesmo, sabe? Com a questão. Me senti mal mesmo. Eu só relevei tudo porque eu senti a pressão que todo mundo tava sofrendo. De, de ter a possibilidade de ser preso por assassinato. É o pior! Sabe, eu acho que é assim… O ápice de tudo.
– É… E tu contou pra mais alguém, assim, além dessas pessoas? E a reação deles foi tranquila?
– Foi. Inclusive eu tive pessoas que falaram que, se isso acontecesse, “eu não sei se eu teria coragem, por toda a implicação, mas por mim eu faria”.
– Quando eu fiz aquelas perguntas antes sobre se você tava tomando contraceptivo, eu não queria, tipo, dar a impressão…
– Não!
– E… E eu acho importante falar, porque eu tenho essa sensação de que, toda vez que eu vou perguntando isso, as moças que tão fazendo a entrevista sentem que eu meio que quero chegar num ponto, mas não é esse o ponto. “Ah, é sua culpa”. Eu só quero traçar o itinerário mais comum, tá ligado? Mas eu super acho totalmente normal, sei lá, tanto você tomar, quanto você não tomar contraceptivo. Eu não tomo e nunca tomaria e tipo, se você transar sem camisinha alguma vez porque, tipo, pô, na hora deu vontade, não é ideal, mas acontece. Então, assim, eu não julgo mal esse tipo de coisa, tá ligado. Só pra deixar claro.
– Eu só queria falar uma coisa…
– Diga.
– … Que eu acho importante com relação à visão heteronormativa, sabe? Com essa relação do aborto com a promiscuidade, sabe? Eu trabalho num lugar que lida com homossexualidade e recente eu tava conversando sobre isso – e a minha posição é uma posição clara com relação a isso. Não que eu falei “ah, eu fiz”, mas sempre foi – antes de fazer, depois que fiz -, sempre foi pró-aborto… E aí, eu ouvi muita gente falar assim, ah, que o filho do estupro, no caso – que é a discussão do estatuto do nascituro agora -, que seria plausível que você aborte, entendeu? Porque é um filho que vem duma conjuntura de agressão. Só que o filho que vem duma conjuntura de diversão, em que a pessoa estaria se divertindo, ficando com uma, ficando com outra aqui… É uma… Não sei qual foi a palavra que se usou, se foi vagabunda ou vadia, não sei, foi um nome desses aí… Que esse filho, ele, ele… Ela tem mais que assumir, porque a responsabilidade é dela… E também que “como assim? A criança não tem nada a ver com isso” e… Tipo assim, “é uma vida!”. Aí, eu fico me perguntando assim – eu não tou defendendo, vou deixar isso bem claro, que eu não tou defendendo que você tenha o filho do estuprador, mas no momento que você fala pra mim que o importante é a vida, que você considera… Pra mim é uma bola de sangue, né? Mas se você considera aquela bola de sangue, aquele emaranhado de sangue uma vida… Peraí, então o filho do estuprador, ele não é digno de vida? Mas O filho que você tem na promiscuidade, ele é digno de vida.
– É incongruente, né?
– É incongruente, porque aí você não tá julgando a vida, você tá julgando a relação de sexualidade que a mulher tem no mundo, sacou? Se ela foi inocente quanto à sexualidade ou a culpabilidade da coisa, aí ela tem o direito de abortar. Mas se ela não foi inocente, aí ela não tem… E esse argumento da dentro dos núcleos de saúde!
– É isso mesmo… E as pessoas não percebem que o que elas tão fazendo é julgar a sexualidade, né? Elas acham que estão julgando o fato de ser uma vida ou não.
– É… E é elas mesmo, sabe? Não só eles. É tipo, conversar com meninas e ver essa postura.
– Ah, sim, a pergunta que eu tinha esquecido de fazer e eu me lembrei quando você do se namorado de novo é… Como foi a discussão… Você discutiu com ele abortar ou não… Ou ele, tipo, falou alguma coisa pra você?
– Então, a gente já tinha várias discussões sobre isso, assim, tipo, porque, como eu milito, já é uma discussão frequente, né? E a gente já tinha falado sobre isso e tinha falado que, se caso isso acontecesse comigo, eu não teria, porque… Não sei, porque eu acho mesmo que eu não ia ter coragem, tipo… No sentido de todas as implicações financeiras, emocionais, porque, enfim, eu acho que eu não teria coragem, porque eu, enfim, eu ia ficar com medo mesmo, sabe? Aí, quando… E eu vi também que, que a relação dele com isso era uma relação muito assim “ah, se acontecer, aborta”… E eu tentei várias vezes falar com ele sobre isso, assim, falar “olha… Aborto não é esse processo”. Não é simples. Além do custo psicológico, tem um custo financeiro alto, sabe? Porque, assim, com o Cytotec é barato, mas se você for numa clínica, se você estiver com 4 ou 5 meses… Se for numa clínica, você tem que desembolsar 5.000 reais e eu não sou uma pessoa abastada. Eu não tenho dinheiro, sacou? Então, assim, “Ah, mas, sei lá, vende alguma coisa”. Tipo assim, sabe? Aquela coisa. Chega num momento que é uma coisa tão séria pra você que, assim, você nem discute. Aí eu peguei, parei de discutir, porque, velho, eu falei “não, não vale a pena”, sabe? E aí, é, eu não… Só deixar claro, eu não tou dizendo, véi, que foi culpa dele, entendeu? Mas, assim, era sempre aquela postura de insistir pra transar sem camisinha. Era sempre aquela postura de, daquele… Daquela coisa assim.. Você, a mulher, tá sempre sendo a chata. Às vezes você escolhe tomar anti-concepcional porque os caras forçam tanto a barra, sabe? E como tava numa relação estável, você acaba deixando certas posturas, é… De invasão mesmo do seu corpo, passarem.
– Passarem. É… É como se fosse uma questão de negociar. “Ah, eu fui chata com ele em tal lugar, então vou abrir essa excessão”…
– Hm… É… É sempre uma relação assim, de uma sutileza de uma pressão psicológica…
– E nessa a gente acaba assumindo um custo que vai ser muito mais alto para a gente, né? Pra ele, assim, não vai tanto quanto, porque no final das contas o filho acaba sendo mais da mulher, por uma questão cultural, né? Porque os caras não tão presentes em geral.
– E eu posso estar errada em falar isso, mas eu acho que por uma questão biológica também. Você é que tem, tipo, sei lá, aqueles hormônios que determinam que, de certa forma, fazem com que você tenha um afeto maior, sabe? Fazem com que você…
– Eu não sei, porque eu já vi tanto, assim, mães que não têm afeto e muito filhos que tem pais que têm tanto, então, assim, eu não sei se é uma coisa biológica.
– É, pode ser, pode ser, mas é uma sensibilidade tão grande quando você tá grávida que eu, eu não sei explicar muito, porque eu geralmente não sou uma pessoa muito sensível não… E tipo, eu achei meio estranho. Você fica num nível, assim… Estranho, sabe? Eu achei estranho.
– Sim, eu sei, quando a gente engravida – eu nunca engravidei, mas, assim, pelo que as pessoas falam -, rola uma reação hormonal e a gente fica muito sensível… Mas pode ser uma sensibilidade tanto pra gostar do… Da, da criança, quanto pra repelir. Tanto que tem depressão pós-parto, etc…
– É e eu senti mesmo que aquilo tava meio que me invadindo, assim, sabe? Era um… Mas o ponto em que eu queria chegar é o seguinte: é que especificamente quando aconteceu de agente transar sem camisinha, foi aquela coisa de forçação de barra. Não, não me segurou, não me forçou, não me estuprou nem nada, não, não foi isso… Mas assim, “não, não…”, tipo, “só um pouquinho…”, “ai…”, num sei quê, “ai…”, aquela coisa, sabe? “ai, eu gozo fora…”. Aí eu, tá, massa, vamo. Entendeu? Eu tava cansada de ser a chata… E justamente, deu-se a merda. E aí, depois, quando eu fui falar com ele, primeiro, ele não levou a sério, quando eu falei que eu tava achando realmente que eu tava grávida. Eu falei que achava porque minha menstruação atrasou. A menstruação atrasar pra eles é recorrente, sacou? Aí eu falei, sabe? Eu falei muito assim, diferente, porque a gente tava separado, porque eu liguei pra ele, pedi pra ele vir na minha casa, uma coisa bem… Aí depois que ele soube do resultado, eu senti que, lógico, tinha uma pressão dele pra poder abortar sim, porque ele sempre deixou claro que não queria ter filho, entendeu? E, assim, apesar de eu ter visto que, assim, ele foi muito massa comigo, carinhosso, ficou comigo o tempo inteiro… Ele gostava de mim, sabe? Só que, assim, eu senti, de todos os lados, que eu nem poderia cogitar a possibilidade de falar assim “ó, eu quero ter esse filho”, entendeu? Não podia nem passar pela minha cabeça, sabe? Então, assim, nesse sentido eu me senti acuada mesmo.
– Boto fé. Foi um processo violento pra você.
– Violentíssimo. Muito.
– *longa pausa* É… Antes de você descobrir que você tava grávida, fazer o aborto, você já tinha algum conhecimento sobre aborto, assim… Você já sabia bastante ou sabia pouco?
– Bom, sobre o aborto em si, sobre o processo do aborto, como se faz, eu não sabia. Depois eu descobri coisas horríveis, assim… Que tem pessoas que não têm condição financeira e, enfim, pegam uma agulha de crochê e, véi… Pesa, sacou? E também pessoas que tomaram o remédio e não resolveu, sabe? Então, assim, tudo isso e, assim, eu descobri, assim, porqueeu achava mesmo, eu tinha o preconceito de achar que quem engravida acidentalmente, talvez é porque não tenha tido acesso a modos de prevenção. Ah, sei lá, uma menina pobre de 15 anos que não tem como ir no médico sozinha, não tem como comprar remédio, tem os namorados irresponsáveis ou tem aquela transa aleatória, sabe? Então assim, eu achava que era sempre nesse contexto que acontecia, entendeu? E, assim, e eu vi que não, eu vi que muitas… Porque nessa hora, como a pessoa sabe que você tá no mesmo barco que ela, muita gente acaba contanto pra você que fez também, entendeu? E nessa hora eu descobri que tinha muita, muita menina de classe média e de classe alta que tinha feito e que tinha dinheiro pra pagar, assim… Que fez com o Cytotec e não deu certo e que tinha dinheiro para pagar a clínica, e que fez com 5 meses, sabe? Que… Então, assim, eu conheci muitas. Se você, por exemplo, pegar… A gente tem mania de falar, numa sala de, assim, né, aquela coisa, sala de ensino médio, tem 40 pessoas, sei lá… Pelo menos 4 meninas ficam grávidas aí, né? Aí, tipo, se eu pegar, se eu fizesse uma coisa de amostragem, assim… Eu duvido que saísse do equiparado. Se você pegasse uma questão de classe e uma questão de gravidez…
– É, eu concordo com você, véi. Todas abortam, só que as ricas sobrevivem e têm um aborto legal e as pobres às vezes não.
– E as que não têm conhecimento ou coragem acabam tendo o filho.
– Exato.
– É… Tem alguma coisa que, assim, no seu cotidiano, hoje em dia, te faz lembrar dessa experiência do aborto que você teve?
– Como eu disse, como eu trabalho com a questão da sexualidade e a saúde, voltado para DSTs e tal, eu, eu acho que falta muita conversação com relação a questões de gênero, a questões de identidade sexual, a questões de aborto, à questão de como é visto o corpo da mulher com relação ao sexo. Porque, por exemplo, mulheres… Você não vê mulheres em postos de saúde pegando camisinha, tipo, é muito raro. Por quê que as mulheres têm essa vergonha mesmo de se prevenir, sabe? Então, assim, eu acho que teria de ter uma discussão mesmo voltada para uma perspectiva da saúde… Ministério da Saúde, coisa de políticas públicas mesmo, porque não tem. As pessoas que estão nos postos, as pessoas que trabalham com a sexualidade e a saúde no Brasil, de uma forma geral – não tou dizendo todo mundo não -, mas de uma forma geral, são campanhas feitas, sei lá, eu não diria nem de héteros para héteros, sabe? Eu acho que são campanhas feitas de homens para homens. No estilo de “ah, tem que usar camisinha”, mas quem vai buscar a camisinha? Porque que não tem uma pegada mais da coisa da mulher mesmo como uma autônoma? Assim, sei lá, “faça seu exame”… Ou para adolescentes, é… “Tal lugar atende adolescentes sem ter que passar pelos pais”, entendeu? Tem muitos pais evangélicos que acham que a menina que vai no ginecologista é a menina que já tem relações sexuais, sabe? Então a menina fica até os 20 anos sem nunca ter passado no ginecologista… E a gente sabe que tem candidíase, Hpv, essas coisas que não são…
– É, tendo sexo ou não…
– É, véi, tendo sexo ou não…
– Hpv tem, né, haha, eu tava falando da candidíase
– Não, Hpv, cê sabe, não necessariamente…
– Ah, não?!
– Você pode pegar Hpv em banheiro público. Tem essas coisas que não é falado, não sei se para a população não entrar em pânico, sabe?
– É, acho que é porque, velho, a moral da maior parte da população tem é essa, cara. Só homem pode fazer sexo fora do casamento e…
– É, e é muito engraçado que, quando você fala de uma discussão de identidade sexual, ne? Não sei se você tá usando o termo identidade ou orientação, mas, por exemplo, você fala de identidade sexual dentro de um contexto de saúde e de DST, eles logo se remetem a travestis e a gays. Eles não pensam em nenhum momento “pô, que massa se existisse uma camisinha de dedo”, por exemplo… Que… Sabe? Falar disso já é um tabu enorme, imagine a pessoa falar de aborto, sabe? Então, assim, sabe, eu… Eu… Eu ando muito frustrada com relação a isso e eu tendo muito a querer sair mesmo, velho, por conta mais de… Velho, o tempo inteiro, quando essa discussão vem acontecendo, eu tendo a imaginar aquela coisa, sabe? Que vai me remetendo à coisa do aborto, porque tá tudo muito interligado, sabe? Assim, eu fico pensado, ah, se a educação da gente não fosse tão enfocada em que a gente sempre vai ser a culpada, que você sempre vai ser a chata, você sempre vai ser isso, você sempre vai ser aquilo… Será que tinha acontecido? Sabe? Se, se realmente eu fosse uma pessoa que “ah, eu sou dona do meu corpo e, tipo assim, se você quer transar sem camisinha, problema, vou levantar e vou embora”, sabe? Tipo, será que tinha acontecido? Se eu não quisesse, tipo, agradar, sabe?
– Boto fé.
– E eu fico imaginando, porque eu me acho uma pessoa bem, assim, liberal com relação a isso e eu fico imaginando as pessoas que não são.
– Que não têm contato com ideias feministas, não um feminismo acadêmico ou clássico necessariamente, mas, tipo, ideias feministas soltas… Tipo, que não é uma coisa muito comum. Eu tenho a mesma sensação que você. Eu sou uma pessoa feministas e eu falo… Tipo… Meu discurso e minhas ideias são as de que eu não posso fazer sexo de um jeito que não é o que eu quero, mas na prática não é assim… É muito foda isso. Eu prometi pra mim que da próxima vez eu não vou…
– Não, assim, mas essa experiência pra mim foi ótima, porque, assim, pra mim, hoje em dia, não é que eu vá dizer que eu nunca mais vou transar sem camisinha, mas que… Foi bom no sentido de que, tipo, eu me libertei mesmo, sabe? De coisas que hoje, velho, eu não admito. Eu não admito de maneira nenhum, velho, alguém vir encostar em mim se eu não quiser. Não. Não precisa nem… Não precisa vir com chantagem, não precisa vir com… Sabe? E cara, velho, eu falo… Os homens, velho, de modo geral – pode até existir um ou outro bacana, mas de um modo geral, eles são bem escrotos, véi.
– É, né? Porque não é com eles…
– É, não é pra eles que aperta, sabe? Não é neles que dói.
– E é por isso que a gente tem que – sem querer culpabilizar a gente, né? Por essas coisas, que eu acho que não é nossa culpa… A gente tem que assumir uma postura de mais auto-amor, eu acho, assim, tipo… Não, não achando que o aborto é uma coisa escrota que não deve ser feita e, tipo, vamos transformar isso…. A camisinha tem que ser usada sempre, tralalá lalá lalá. Não. Tá, se você… Mas eu acho que na maior parte das vezes, dessas experiências de aborto, vêm dessa nossa falta de auto-respeito nessas horas.
– Pode ser, mas eu acho que uma parte pode vir também, velho, da questão da famosa camisinha que estoura… Que a galera acha que não. Eu já vi gente insistir que não estoura, mas…
– Camisinha que estoura, anti-concepcional que falha… Tem todas essas paradas assim… E, de qualquer forma – e eu vou te perguntar isso; vou primeiro falar só pra dar introdução… É… Pra mim aborto é uma questão de sabedoria reprodutiva. Mulheres sempre abortaram e sempre vão abortar, passe o estatuto do nascituro ou não, é…. E é uma parada importante, cara. Acho que é um direito de toda mulher e não é um assassinato, porque aquilo não é uma vida. Aquilo não tem cultura pra ter interesse em viver ou não, entendeu?
– Não tem nem cérebro, não tem nem sensibilidade, não tem nada… Um embrião é tanto vida quanto uma planta.
– É.
– Entendeu? Então não faz sentido, uns argumentos assim, que você… Véi, tem o argumento de que vai onerar o Estado, porque vai ter aborto porque o pessoal tá gastando não sei quanto em curetagem…
– E de qualquer forma, eu acredito que, assim como aconteceu nos países que têm o aborto legalizado, não vai aumentar o número de abortos por se legalizar, porque aborto já acontece. O que vai acontecer é que vai ser uma experiência menos, é… Escrota para mulher e talvez até venha a ser menos frequente porque a gente vai ter mais noção do que fazer com nosso corpo. Faz parte da nossa sabedoria reprodutiva em geral.
– Sabe uma coisa que eu li depois que passou, uns quinze dias depois? Eu li… Eu procurei sobre o Cytotec, né? O Methergin… Eu descobri que parece que esse método vazou do hospital, porque quando o embrião para de bater o coração, aí… O custo de fazer uma cesariana, para a vida da mulher, com anestesia geral, é muito mais alto do que ela topar o Misoprostol oral e intra-vaginal. Então eles começaram a usar esse método para causar as contrações e expulsar o embrião morto… E parece que esse método vazou do hospital e parece que na Europa é mais, é… As mulheres geralmente escolhem fazer com o remédio, porque é tipo como mais natural. É como se fosse o parto natural. Parece que tem menos prejuízo, menos sequelas pro corpo do que uma, uma… Cesariana.
– Se bem feito, eu acho, porque a menina que eu entrevistei antes de você, ela tomou Cytotec também, mas ela tomou três e um intravaginal. Ela falou que saiu um pedaço de músculo… Mas ela falou… Engraçado, ela falou isso muito tranquilamente. Eu fiquei de cara. Assim, sangrou pra caramba e saiu um pedaço de músculo dela! E ela não tinha meses, ela tinha dias.
– Olha, mas eu conversei com uma menina antes… A menina era mais ou menos da minha altura e a gente tinha mais ou menos o mesmo peso. Eu acho que a dose faz diferença com relação ao peso e a altura. Não sei, tou falando isso como leiga, né? Pelo que a gente conhece… Mas, assim, eu tinha comprado quatro, a receita genérica… Mas como ela tinha falado pra mim “toma um e coloca um, que é muito forte”, eu falei, velho, eu acho melhor eu ouvir uma pessoa que já fez, entendeu? E aí, foi essa. Foi assim, bem tranquilo e eu fiquei pensando, pela contração que eu senti… Foi uma contração forte, mas nada a que eu não estava acostumada… Mas assim, eu acho que eu sou a exceção, porque eu já fui parar no hospital por conta de cólica menstrual. Então, assim, não sei, né? Talvez eu seja mais resistente a dor do que outras pessoas… Mas, assim, aí ela falou pra mim e eu resolvi escutar ela. Eu senti uma contração, mas com dois… Realmente, com dois, gente, eu acho que eu tinha chorado de dor.
– É, imagine ela que tomou três. Giovana, depois que você abortou você teve alguma experiência de ajudar alguém a abortar?
– Então, assim, não, porque eu não tive a oportunidade, mas eu deixei os meus dois comprimidos pra serem doados pra quem precisasse e acabou que uma menina usou. Ela fez questão de pagar, mas eu não recebi o dinheiro. Aí a menina que tinha me ajudando, porque ela tava precisando de grana, né? Ela acabou ficando com a grana, mas ela vendeu pelo mesmo preço.
– Boto fé, que legal. Bom, tu acha que faltou perguntar alguma coisa na entrevista, alguma coisa que seria bom falar?
– Então, uma coisa que eu queria, é, assim… Compartilhar, porque eu acho que, assim, como uma coisa assim que me levou pro psicólogo, mesmo, sabe? Porque, primeiro, eu senti uma culpa por não ter sentido culpa. Não sei se dá pra entender isso, sabe?
– Com certeza.
– Porque, assim, olha, velho, eu tenho vergonha de falar isso, mas, assim, eu senti um.. Eu senti asco, sabe? *longa pausa*
– Não fica assim não. Fica bem. Não precisa falar.
– Não, eu tenho que falar. Eu sentia asco, sabe? Eu não consigo falar sobre… Quando eu lembro, a única palavra que me vem à cabeça é “daquilo”, sabe? Eu não lembrava duma pessoa. Eu me senti invadida. Eu me senti injustiçada. Eu, véi, senti raiva, senti muita raiva, véi de… De, ah, velho, cê tá ali, tipo… Sei lá, num sexo aleatório, cara, meu namorado, tinha dois anos… Mesmo que se fosse… Ou que não fosse… A pessoa não estar nem aí pra nada, sabe? E aí quando acontece, sabe? Entra por um ouvido e sái pelo outro, sabe? É… Tipo, eu vim, véi, que ele não sentiu um pingo de culpa.
– Como se não tivesse nada a ver com ele.
– Pois é, aí eu falei, véi, se você não tivesse feito, se você não tivesse forçado a barra, sabe? Não tinha acontecido isso. “Ah, mas você quis também”, sabe? Assim, véi… E eu tava sentindo asco, eu tava, tipo, eu sempre quis ser mãe, eu sempre quis engravidar, sabe? E de repente eu tinha… Ah, tudo bem, podia ser a vida de uma planta, podia ser a vida de uma bola de sangue, mas era um ser humano em potencial… E eu tava sentindo asco, na minha cabeça, de uma pessoa que eu nem conseguia chamar de pessoa, sabe? Que eu chamava de coisa, sabe? Então, assim, hoje em dia eu penso, assim, 50 milhões de vezes que se amanhã ou depois eu tiver condições de ter o filho – condições financeira, eu digo -, eu não sei se eu quero, sabe? Porque, assim, eu senti tanto repúdio, tanta… Não assim, das pessoas, eu senti repúdio mesmo do que tava em mim, sabe? Sabe? Nossa, na hora que aquele negócio desceu, velho, eu me senti… “Eu sou uma pessoa podre”.Eu me condenei. Eu sou, véi… Que ser humano sou eu, sabe? Que ser humano sou eu? Que… *pausa*
– Eu entendo. Eu entendo, Giovana. Eu nunca passei por essa experiência, mas eu já imaginei, tipo, eu sempre imaginei, eu… Eu acho que a experiência de engravidar ou abortar é uma parada que é muito surreal cultural e naturalmente. Assim… Eu sempre achei muito escroto e sempre me senti injustiçada, como você falou, só pela capacidade, assim, de isso acontecer, sabe? Assim, tipo, eu tou vivendo, tou transando e aí…
– Eu vou receber uma punição, sabe?
– … Alguma coisa muda em mim, alguma coisa muda em mim que não muda na outra pessoa, entendeu? E aí isso vai mudar minha vida pra sempre queira eu ou não…. Escolha eu abortar ou não. Aquilo vai estar ali para sempre e isso é uma injustiça cultural e natural, e eu entendo tudo o que você está dizendo. Eu… Eu certamente, tipo, certamente entendo que a sua dor é, assim, imensurável, não dá pra dizer que eu sinto a mesma coisa que você nem nada assim, mas, tipo, não se sinta estranha e diferente das outras pessoas porque você está sentindo isso, porque eu imagino que eu sentiria a mesma coisa.
– Mas sabe o que é o pior? Eu fui no psicólogo falar sobre isso e, cara, a pessoa, tipo… “Ah, aqui a gente só atende casos emergenciais”.
– Caralho.
– Véi, assim, foi muito… Além do custo emocional daquilo, que eu não vou dizer pra você que eu abortei porque eu não tinha condição financeira, porque eu tava brigada com o namorado… Pesou um pouco, mas é que eu não tinha o menor alicerce psicológico, o menor… Eu não tinha vontade, sacou? Eu não queria. Eu não queria… Mas esse asco que eu senti, que eu senti assim… Eu… Eu me condenei muito por ele, sabe?
– Bom, eu… Eu acho que nada que eu possa dizer vai ser muito útil…
– Não, relaxa…
– … Mas eu acho que você não deve se culpar, eu não acho que você é uma pessoa escrota ou que você não vá ter vontade de ter filhos no futuro se você fosse ter filhos ou… Mesmo que você não queria, que você é uma pessoa diferene e ruim. Eu realmente queria que você não pensasse isso.
– É o que eu costumo dizer pras pessoas: racionalmente, assim, eu acho que eu tenho toda a razão do mundo, que eu tou certa, mas… Essa relação, eu acho que… Eu não posso dizer que tem um fundo religioso nem nada. Eu acho que eu fiquei esperando, sabe? Aquele amor que todo mundo falava que as mães sentiam pelo filho, sabe? Aquela… Toda aquela imagem de comercial de margarina, sabe? Foi aquilo… E eu senti um terror e pânico, velho. Nossa, eu senti o meu corpo… Né?
– Invadido mesmo… Que nem num filme de ficção científica, eu imagino, como se tivesse um E.T. dentro de você.
– Exatamente. Véi, sinceramente, você não tem o preparo psicológico para aquilo ali… Eu não consigo lidar não. Pode me chamar de fresca, mas eu não consigo lidar com aquilo ali não. Eu nunca imaginei a possibilidade da minha barriga crescer, daquela, cara… Aí sim, né, cara… E não é questão estética… Tem a questão estética também, não vou ser hipócrita, mas é muito mais aquele… Ai, nossa véi, tava imaginando, assim, tem uma pessoa crescendo dentro de mim e quem é que autorizou, sabe? É…. É… Eu sinceramente não sei se eu vou querer passar por essa experiência a não ser que eu esteja muito decidida do que eu quero, porque…
– E depois cê voltou pra sua religião? Cê tá indo?
– É, eu acabei arrumando outro lugar que é um lugar bem legal, que, assim, não é o culto do candomblé propriamente dito, é uma coisa que resgata na África mesmo as raízes… Eu entendi um pouco essas coisas que me são comuns, assim… Eu descobri que eu sou Abiku…
– Você é o quê?
– Abiku, abiku… É assim, nascido para morrer. No candomblé eles interpretam assim, mas na religião Iorubá de que eu sou, ela tem outra interpretação com relação a isso… São pessoas que, quando tavam no Orum, elas não queriam vir para a terra, reencarnar… Aí têm uma relação de vontade de voltar, que também tem uma relação com essa coisa do aborto, pelo fato de geralmente…. De que geralmente quem é filho de Abiku como eu sou, ou geralmente a mãe teve um processo de aborto natural ou os filhos vêm ao mundo pra ficar muito pouco tempo, sabe? Pra só vir no mundo. Então, de certa forma, quando eu fui pra lá, isso me deu um conforto, porque eu sabia que eu não tava sendo condenada… Por que talvez, de certa forma, essa vida que veio a mim é uma vida de cumprir um breve momento, então, para mim, foi um certo alívio.